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Dois lados de uma mesma moeda
 
28 de agosto de 2008      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 
Mazzola em 1958
Na língua portuguesa Piracicaba significa um lugar com uma cachoeira que impede a passagem do peixe, favorecendo a pescaria. Também é o nome de uma cidade no interior paulista, famosa pela sua cachaça e onde nasceu José João Altafini, um bravo goleador e herói em dois continentes. Seus começos foram no XV de Piracicaba e a sua posição, atacante, daqueles que não desprezam uma boa pescaria na área adversária. Coincidência ou não, ele fazia justiça ao nome de sua cidade natal. Porém, se engana quem pensa que esse rapaz loiro, muito semelhante fisicamente com o craque italiano do Torino Valentino Mazzola, fosse um mero finalizador de jogadas. Ao contrário, valendo-se de uma velocidade ímpar, movimentava-se bastante, além de altruísta em fazer tabelas com seus companheiros. Em 1957 é contratado pelo Palmeiras, chegando também à Seleção Brasileira. A essa altura, já com o apelido de “Mazzola”, o jovem atacante encanta as platéias com o seu repertório de jogadas, dentre as quais o seu chute, potente como um tiro de espingarda, um verdadeiro tormento para os goleiros. Após a Copa de 58, na qual marca o primeiro gol brasileiro na competição contra a Áustria, Mazzola vai para a Itália jogar no Milan.

Mazzola em 1962Favorecido pela sua estirpe italiana, Mazzola adota dupla cidadania, disputando a Copa do Chile pela azzurra. Mas é mesmo pelo Milan que ele joga bem de verdade. Na final da Copa dos Campeões da Europa de 63, o agora “Altafini” marca duas vezes na vitória sobre o Benfica de Eusébio. Foi no mítico estádio de Wembley, em Londres, que Mazzola fez a alegria do técnico Nereo Rocco, dando o primeiro título da competição na história da equipe lombarda. Esse time é um dos mais cultuados da história do Milan até hoje: Ghezzi, David e Trebbi; Benitez, Maldini e Trapattoni; Pivatelli, Dino Sani, Altafini, Rivera e Mora. Na série contra o Santos pelo Mundial Interclubes, o Milan perde o título na negra jogada no Maracanã. Mazzola reclama muito da arbitragem do argentino Brozzi, alegando ter sido caçado pelo time brasileiro o tempo todo. Para piorar, Gipo Viani, espécie de assistente de Rocco, chama Mazzola de coniglio, como se esse tivesse fugido do pau. O fato é que, apesar de evitar o contato físico, ninguém podia negar as qualidades de Mazzola como artilheiro. Tanto é que ele foi goleador do campeonato italiano pelo rossonero de Milão, além de vencer dois scudettos, em 59, jogando ao lado do argentino Grillo e do uruguaio Schiaffino, e em 62.

Encerrado esse período milanista, Mazzola toma o rumo de uma bela cidade meridional e ensolarada. Em Nápoles ele teria ao seu lado um dos maiores jogadores da história, Enrique “El Cabezón” Sívori. Segundo o jornalista Gianfranco Coppola, Sívori “diventa presto il ‘vulcano’ del Napoli, uma sorta di vendicatore”. Sim, um vingador que coloca de joelhos as defesas dos poderosos Juventus e Milan. O ano era 66 e o Napoli termina o campeonato em terceiro lugar. Antes de Maradona e Careca, portanto, outra dupla argentino-brasileira, nas figuras de Sívori e Mazzola, já havia arrastado multidões ao estádio San Paolo. Em 72 Mazzola volta para o norte, dessa vez para Turim, margem bianconera. Com a Juventus, vence mais dois scudettos. Em 73, num ataque formado por Altafini, Causio, Anastasi, Fabio Capello e Bettega, e em 75. Aos 40 anos, Mazzola encerra a carreira em uma equipe da Suíça. Vive na Itália até hoje.

No ano de 2000, Mazzola esteve na Serra Gaúcha, deixando-se fotografar na Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul, ao lado da réplica da Pietà. Além de ter seu próprio programa em uma rádio italiana, Mazzola veio para o Brasil imbuído da tarefa de descobrir novos talentos dentro do futebol. Craque respeitado em dois países que hoje somam nove conquistas em Copas do Mundo, Mazzola defendeu com dedicação ambas as seleções, a canarinho e a azzurra, falando sempre aquela linguagem que desde os primórdios do futebol é universal: a do gol. Como bem disse Ernesto Sábato, “la patria de uno es su infancia”. Nesse caso, Piracicaba e suas cachoeiras devem ilustrar os sonhos de Mazzola na distante e fria Turim. Brasil e Itália, Mazzola e Altafini, dois lados de uma mesma moeda, de uma paixão que o esporte e seus caminhos nos fazem percorrer.
* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS   -   fale com o autor
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