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Titulos da Seleção do Uruguai

APENAS UM CARRASCO - "GHIGGIA, O ALGOZ DE 1950"

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28 de janeiro de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email
Ghiggia - o carrasco brasileiroEstranhos os caminhos que a vida reserva. Coube a um jogador da seleção uruguaia dos anos 50 carregar o peso histórico de ter sido o carrasco brasileiro, destruidor da ilusão de um país, de um povo. A vitória mais certa das Copas do Mundo e que não aconteceu. Responsável pela transformação do nosso sonho em pesadelo, Ghiggia, antes de tudo, é um ser humano. Herói para a nação oriental, vilão para nós brasileiros, mito para o mundo do futebol.

Desde cedo torcedor fervoroso do Peñarol, Alcides Edgardo Ghiggia passou sua infância a poucas quadras do Parque Central, reduto do antípoda Nacional. Sua trajetória futebolística teve início no modesto Sudamérica. O rapazote magro e de olhar misterioso quase não acreditou quando em 48 os dirigentes do clube comunicaram-lhe que ele estava sendo transferido para o clube de seu coração. Junto com Alcides iriam Míguez, que se tornaria figura no Peñarol e na seleção celeste e Antonio Sacco. Apelidado de “el ñato” por causa de seu nariz achatado, Ghiggia logo tornou-se efetivo no time principal.No ano seguinte começaria uma das melhores fases que o Peñarol já teve. O técnico era o húngaro Emérico Hirsch.

Natural de Budapeste, Emérico já havia treinado o Palestra Itália e o River Plate argentino. Seu ataque no clube ouro e negro seria Ghiggia, Hohberg, Miguez, Schiaffino e Vidal, ou “la escuadrilla de la muerte”. Segundo relato de companheiros daquele timaço, Ghiggia era um ponta veloz e inteligente. Difícil de ser marcado, quando caía imediatamente se levantava, como se fosse um boneco de mola. Após ser campeão uruguaio invicto em 49, o Peñarol cedeu vários atletas para a odisséia da Copa do Mundo no Brasil, a ser realizada no ano seguinte.

O gol de Ghiggia que calou o MaracanãComo sabemos, o Uruguai levantou a taça diante de nossos incrédulos olhos, vencendo a final por 2x1. Falar sobre a “mãe de todas as derrotas” já se tornou uma espécie de obsessão para os estudiosos do futebol. João “Bigode” Ferreira foi o marcador de Ghiggia naquela triste tarde. Diz a lenda que o técnico do onze brasileiro, Flavio Costa, havia pedido aos jogadores que não dessem “pau” durante a partida. Tal orientação teria amolecido o escrete, permitindo a reação celeste. Bigode anos mais tarde desmentiria essa hipótese.

O que aconteceu é que o lateral ficou perdido entre a habilidade de Julio Perez e a velocidade de Ghiggia, os jogadores que formavam a ala direita do ataque uruguaio. O lance capital do jogo acontece após uma escapada de “el ñato” que com um chute mascado, levantando tufos de grama, vence o nosso guardião Barbosa. O Maracanã ficou em silêncio, com medo e dor. Anos mais tarde ele ficaria em silêncio de novo, enquanto Frank Sinatra cantava “Strangers in the Night”. Porém, esse seria um silêncio muito mais agradável do que aquele causado por Ghiggia.

Após a Copa, Ghiggia volta a defender o Peñarol. Corre o ano de 53 quando, durante jogo contra o rival Nacional, o ponteiro agride o juiz, recebendo uma punição que o levaria a deixar o clube. Seu destino seria a Roma. No dia 31 de maio o presidente do clube italiano Renato Sacerdoti anuncia a contratação de Alcides. Segundo registros sobre a Roma, Ghiggia era um “vero campione sulla scena(...)però una figura controversa, inquieta nella vita privata”. De fato, um pequeno escândalo ocorre quando Ghiggia é surpreendido com uma garota de catorze anos em atividades suspeitas, sendo condenado por ato obsceno em local público. Mesmo assim seu nome queda imortalizado na galeria de ases do time romano, onde jogaria oito temporadas até transferir-se para o Milan em 61.

Sucessos e fracassos, alegrias e tristezas. Já aposentado como jogador, Alcides faz um balanço da sua vida durante mais um dia de trabalho no Cassino Municipal de Montevidéu. Assim como os outrora companheiros de seleção Obdulio Varela e Gambetta, Ghiggia recebera o emprego do governo uruguaio, como reconhecimento pelos serviços prestados à nação. Teria ele sido feliz ou infeliz? Seu semblante é calmo e sereno, caminhando nas areias do balneário de Barra do Chuí no Rio Grande do Sul, onde vez por outra passa suas férias. Hoje em dia ele prefere evitar falar sobre futebol. O tempo ensinou que as glórias são efêmeras e que mesmo os gigantes do esporte são simples mortais. Assim é Ghiggia. Um homem comum, que viveu entre os grandes espetáculos e as tristezas cotidianas da vida.
Lucio Humberto Saretta* Lúcio Humberto Saretta é escritor (autor de Alicate contra Diamante e outras histórias do esportes - Editora Maneco - Ano 2007) e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email
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Página adicionada em 28 de janeiro de 2009.
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