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19 de fevereiro de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

Fecham-se as cortinas

Obdúlio Varela no PeñarolEle já não era o mesmo. Joe Louis parecia cansado quando esteve em São Paulo no mês de maio de 1950. Sua aparência, em uma luta de exibição que fez no país, era uma sombra do passado, músculos flácidos e reflexos lentos. Dentro de poucos dias ele voltaria a lutar oficialmente, perdendo a decisão por pontos contra Ezzard Charles, em uma das suas únicas très derrotas como profissional . Boxe e futebol sempre foram dois esportes com uma íntima ligação. A seleção uruguaia de futebol também estava na capital paulista na ocasião, envolvida na disputa de mais uma Copa Rio Branco com o Brasil. E Obdulio Varela não desperdiçou a chance de ver o seu grande ídolo Joe Louis em carne e osso. Segundo o jornalista Franklin Morales no livro “Maracaná - Los laberintos del carácter” , o capitão da celeste era fã de boxe. Naquele instante, duas figuras maiores dentro do esporte estavam mais próximas do que nunca, Obdulio fitando Joe Louis, uma alegria incontida dentro de si.

Obdulio nunca faria a fortuna que fez Joe Louis. Sua fama ficaria restrita no âmbito futebolístico. Porém, uma cruel coincidência uniu esses nobres atletas: o ocaso devastador, a velhice sem o reconhecimento dos seus tempos áureos, em que brindavam as platéias com atuações cheias de heroísmo e galhardia. Sem embargo, eles não foram os únicos a sentir o gosto amargo do crepúsculo, na sua inocente humildade de genuínos campeões. Em seu auge, bajulados pela sociedade. No inverno de seus dias, esquecidos e marginalizados.

Analisemos o caso de Carreiro, exímio ponta esquerda do Fluminense no começo dos anos 40. Conhecido como o “Rui Barbosa do futebol”, participou de campanhas memoráveis do tricolor, até ser dominado pelo ócio e pelo alcoolismo ao parar de jogar. Abandonado pela mulher, passou a viver como indigente. O jornalista Mario Filho sintetizou bem a situação, criticando o espiríto ingrato das pessoas no seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”: “Carreiro era visto dormindo debaixo de um banco de praça pública. Falava-se disso quase à meia voz, como um segredo. Para que pronunciar, outra vez, o nome de Carreiro”?

O pugilista argentino José Maria Gatica saboreou o calor da fama e o frio lúgubre do olvido popular. Ex-engraxate e analfabeto, Gatica aprendeu a lutar nas ruas, tornando-se um dos grandes valores do boxe sul-americano. Assim como Joe Louis, “El Mono” era dono de um altruísmo singular. No seu apogeu, distribuía dinheiro a amigos, parentes ou a qualquer pessoa que lhe parecesse necessitada. Quem sabe lembrando de seus dias difíceis, antes do sucesso, Gatica dava sem pedir nada em troca. Profundamente identificado com a figura de Juan Domingo Perón, ele foi aos poucos perdendo espaço com a derrocada do general em 1955. Morreu atropelado por um ònibus em 1963, após mais um dia de trabalho, vendendo bonecos na porta do estádio do Independiente.


VaváUm dos nossos maiores artilheiros, oportunista nato e apaixonado pelo gol, que fazia enrouquecer as gargantas da torcida vascaína cada vez que mandava a bola para as redes, Vavá foi outra vítima do comum desprezo pelos campeões do passado. Durante o seu enterro, em janeiro de 2002, tamanho descaso provocou a indignação de Jair Rosa Pinto, outro virtuose dos gramados de antigamente. Para Jair, “O Leão da Copa” de 58 merecia um reconhecimento maior, e não apenas a sempre hipócrita presença de alguns cartolas, colocando uma bandeira sobre o caixão de maneira fria e protocolar.

Não falarei aqui do ocaso de Heleno, do triste fim de Garrincha ou das injustiças cometidas contra Barbosa. A história se repete de maneira melancólica. Aqueles que um dia arrastaram multidões às praças esportivas com o seu carisma e talento, são vistos trabalhando como porteiros, taxistas, recebendo olhares piedosos de quem finge não ver, como se fossem fantasmas. Foi assim com Obdulio, que passou a receber salário de funcionário público trabalhando em um cassino de Montevideu. Joe Louis, por sua vez, valeu-se da gratidão de personalidades como Frank Sinatra, que ajudou financeiramente o campeão quando ele teve problemas de saúde, já no fim da vida.

Infelizmente, muitas vezes só damos valor às pessoas depois que as perdemos. Com os maiores vultos do esporte, sobretudo aqueles que não tiveram a sorte de se estabelecer após o final de suas carreiras, essa mística é ainda mais cruel e sombria.

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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