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28 de março de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

Estudiantes de La Plata - A Fúria Estudantil

EstudiantesNos primeiros outonos do século passado, as folhas que caíam das árvores cobriam os bosques da cidade de La Plata, dando trabalho a vários alunos da Universidade local. Munidos de espetos, esses moços não perdiam a oportunidade de, vez por outra, caçar algum roedor que estivesse no meio da vegetação. Como os garis improvisados eram partidários do clube Estudiantes, nasceu o apelido “pincharrata” para designar o time, que já militava há alguns anos no ainda incipiente cenário futebolístico platino. Quem dava as cartas no período amador do país vizinho eram o Alumni, hoje extinto, e o Racing de Avellaneda. Porém, a hora do Estudiantes chegaria.
 

No final da década de 60, o clube atingiu os píncaros da glória, ao conquistar três Copas Libertadores seguidas. O técnico Osvaldo Zubeldia foi por muitos anos o maior vencedor dessa competição. Apenas recentemente seu conterrâneo Carlos Bianchi superou essa marca. Zubeldia teve o mérito de formar uma equipe que se agigantou entre as melhores do continente. Hoje em dia, a Libertadores é bastante “suave” em comparação ao seu estilo original: uma luta voraz e até mesmo desleal, catimbada, onde a selvageria era uma constante em canchas embarradas e noites geladas. O Estudiantes de então parecia ter nascido para esse torneio. Figura de grande ascendência e liderança no elenco, Carlos “el narigón” Bilardo era um apóstolo perfeito das idéias de Zubeldia. Existem lendas sobre o costume de Bilardo em utilizar alfinetes escondidos nas mãos durante os jogos. Mas nem só de crueldades vivia o time argentino. O defensor Raul Madero, por exemplo, possuía grande habilidade e galhardia no trato com a pelota. Mais tarde, ele seria médico da seleção de seu país. E havia também o ponteiro esquerdo Juan Ramón “la bruja” Verón, um craque de notável criatividade e que quebrava um pouco a sisudez do esquema de Zubeldia.
 
Parte do elenco da conquista da Libertadores de 1969Em 69, o quadro “pincharrata” enfrentou o Milan na final do Mundial Interclubes. Foram dois jogos memoráveis, tendo a equipe italiana vencido o primeiro duelo por 3 a 0, com dois gols do brasileiro Ângelo Benedito Sormani, ilustre filho da cidade de Jaú. Sormani tinha colegas de luxo no setor ofensivo, como Combin, Lodetti, Prati e Rivera, o xodó da torcida e ídolo maior do futebol italiano durante a romântica década de sessenta. Embora fosse reconhecido por todos como um verdadeiro craque, Rivera não contava com a simpatia de Gianni Brera, um dos monstros sagrados do jornalismo esportivo peninsular. Brera chamava o garoto prodígio de “abade”, como se ele fosse dono de um jogo vistoso, mas de pouca luta. O que seria de Rivera no jogo de volta contra o Estudiantes em Buenos Aires? É verdade também que todo um clima hostil foi criado pela imprensa européia, que não cansava em tratar o time sul-americano, entre outras coisas, como os “animais argentinos”.

Longe de ser uma presa indefesa, o Milan tinha como técnico Nereo Rocco, uma verdadeira raposa, hábil como poucos na arte da retranca. Mas, naquela noite da revanche no estádio da Bombonera, os corajosos visitantes sentiriam na pele toda a fúria do Estudiantes de Bilardo e Zubeldia. Rivera e seus colegas tiveram a sua Libertadores particular. As hostilidades começaram na entrada dos times em campo, com a torcida jogando copos de café fervendo nos europeus. O jogo em si foi um festival de violência. O zagueiro Aguirre Suárez era um dos mais exaltados, seus cotovelos giravam como pás de um moinho, buscando especialmente a pessoa de Nestor Combin. Combin, argentino de nascimento, foi tratado pela torcida como uma espécie de traidor, sendo xingado impiedosamente durante a peleja. Apesar da vitória por 2 a 1, o Estudiantes teve que se contentar com o vice campeonato.

As conseqüências foram terríveis para a imagem do clube, tendo as autoridades argentinas encarcerado os jogadores Poletti, Manera e Aguirre Suárez por 30 dias na prisão. Essa punição exagerada, talvez tenha ocorrido pelo fato do Estudiantes não ter a força política de um Boca ou River. Além do mais, a ditadura de Juan Carlos Onganía buscava um fato positivo, e não o fiasco que a partida acabou sendo, para apagar as mazelas em que a Argentina estava imersa. De qualquer maneira, o ideal daquele grupo de estudantes de La Plata que deu origem ao clube, ficou manchado pelo mau comportamento dessa equipe, curiosamente a mais vencedora da sua história.

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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