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05 de maio de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

Quando o ciúme entra em campo

Paulo Valentim com a camisa do BocaUm sentimento avassalador. De inveja ou de desprezo, de sofrimento também. Assim é o ciúme, coisa que incomoda e pode trazer a discórdia entre um casal de namorados. O ciúme, sem embargo, não é exclusividade dos amantes. Ele está presente no mundo do futebol, geralmente onde houver um craque com um grande ego ou talento. Quando algum clube reúne muitas estrelas, por exemplo, o ciúme encontra um fértil terreno para prosperar.

Não que Paulo Valentim fosse uma estrela, mas no Boca Juniors, campeão argentino de 1962, ele era uma referência indiscutível. “O curioso de Paulo Valentim é que era negro sem ser negro”, disse o cronista Roberto Fontanarossa, quando muitos anos depois escreveu sobre aquela memorável equipe. O antigo homem-gol do Botafogo tinha uma pele escura, mas cabelos de sarará. Era um ídolo misterioso vestindo a camisa nove azul e ouro. Até que chegou à Bombonera José “El Nene” Sanfilippo. Jogador de raça e habilidade incomum, compadre do presidente Alberto J. Armando, ele havia sido várias vezes artilheiro do campeonato defendendo o San Lorenzo. Dono de um gênio forte , Sanfilippo não demorou em atritar-se com Valentim. Qual o motivo? Em suas memórias “El Nene” atesta: “Con Paulo tenía poco trato, porque el negro era muy parco, no se daba con los muchachos y menos conmigo. Quizás existiera un poco de celos”.
 

É uma pena Valentim não estar mais entre nós para dar a sua versão dos fatos. Logo ele, que tantas vezes vazou as metas inimigas, levando a torcida boquense à loucura. Pintou-se então um triste quadro, dois goleadores notáveis e que poderiam ter formado uma bela sociedade, não fosse pelo ciúme. Para Sanfilippo, o time de 63 foi o melhor da história do Boca. Roma no gol, Orlando Peçanha de Carvalho na zaga, os grandes Marzolini e Rattin, além de um ataque fabuloso com o “louco” Corbatta, Angel Rojas, Paulo Valentim, Sanfilippo e Alberto González. Talvez por causa de tamanha concentração de craques, o técnico Pedernera não pode impedir as intrigas entre Sanfilippo e Valentim, o egoísmo superando os interesses do grupo, um não passando a bola para o outro. Após uma temporada, “El Nene” deixa o clube. Curiosamente, o Boca voltaria a ser campeão no ano seguinte, com grande colaboração de Valentim.
 
Paulo Valentim no BotafogoO caminho das redes nunca foi estranho para Paulo Valentim. Principalmente no Botafogo, onde ele jogou ao lado do maestro Didi. E, assim como Valentim, o inventor da “folha seca” não demoraria a sentir o gosto amargo da inveja e do ciúme. Integrando o plantel do todo poderoso Real Madri da Espanha, Didi viveu o seu inferno particular. Tudo porque em 59, ano da sua transferência para o velho mundo, o clube merengue já tinha um “dono” dentro das quatro linhas. Um jogador fora de série, talvez até melhor do que Didi. Falo de Alfredo Di Stéfano. Desde muito cedo uma valiosa prata da casa do River Plate, Di Stéfano era um rapazote ruivo e muito veloz. Apelidado de “La saeta rubia”, chegou a fazer parte da famosa “Máquina” do clube de Buenos Aires. Mais maduro, foi jogar no Millonarios da Colômbia. Era o lendário “Ballet Azul”, que certa vez derrotou o Real Madri dentro de seus domínios, levando o presidente Santiago Bernabeu a comprar Di Stéfano. Na Europa, o argentino passou a ocupar todos os espaços do campo, não guardando posição no seu empenho em conduzir o Real Madri a novas vitórias. Didi não tinha nada a ver com isso, mas o choque entre os craques foi estrondoso. Dizem as más línguas que Di Stéfano teria boicotado Didi no clube.
 
Nesse instante, gostaria de apontar os holofotes sobre um terceiro personagem envolvido no episódio. Para Puskas, que na época também jogava no Real Madri, Didi sofreu um processo de engorda no clube, tornando-se um jogador lento e fadado ao banco de reservas. Difícil imaginar Didi gordo, ainda mais comparando a sua silhueta com a do próprio “major galopante”, sempre robusto e bem alimentado. Mesmo sendo um jogador de alto gabarito, Puskas soube aceitar com humildade a liderança de Di Stéfano quando chegou à Espanha, assumindo um rolo de coadjuvante na equipe. Talvez tenha faltado um pouco de diplomacia a Didi, mas é provável que o argentino tenha encarado a sua presença como uma ameaça ao seu estrelato. Enquanto isso, Guiomar, a esposa de Didi, escrevia artigos para o jornal “Última Hora”, dizendo que Di Stéfano tinha ciúmes do seu marido. O fato é que Didi, que tanto almejara jogar na Europa e conhecer novas culturas, acabou voltando ao Botafogo.

Depois de pendurar as chuteiras, Didi evitava falar sobre o assunto. É bem possível que o ocorrido na Espanha tenha deixado alguma ferida no famoso jogador. Geralmente um sentimento entre pessoas que se amam, o ciúme dentro do futebol é causador de desunião, contrariando os princípios essenciais do esporte.
 

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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