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24 de maio de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

Radialistas Intrépidos

Gagliano NetoO que seria do futebol se não fosse o rádio? Como é bom ligar o velho aparelho quando a TV encerra a transmissão de alguma partida e queremos mais informações sobre o prélio. Ou quando vamos ao estádio e levamos o popular radinho de pilha para não perder nenhum detalhe do jogo. Um dos precursores e intrépido desbravador deste meio de comunicação foi o padre gaúcho Landell de Moura. Suas experiências foram abortadas pela falta de apoio no Brasil, mesmo tendo o valente religioso levado suas invenções aos Estados Unidos. Então coube ao italiano Guglielmo Marconi a glória de ser reconhecido como o pai do rádio, quando no ano de 1896 patenteou o primeiro transmissor sem fios.
 

Durante a Copa da França em 1938 aconteceu um fato inusitado e revelador da influência do rádio na vida das pessoas. Era a primeira vez que o Brasil chegava tão longe no torneio. A semifinal contra a Itália ganhou contornos dramáticos na voz do narrador Gagliano Netto, a quem muitos acusaram de estar torcendo para a “azzurra”. A verdade é que naquela distante quarta-feira, dia útil, multidões ficaram ao pé do rádio na esperança de um resultado favorável à nossa seleção. Que infelizmente não veio. Sem o craque Leônidas, o escrete perdeu por dois a um. Foi a ocasião do famoso pênalti de Domingos em Piola, marcado quando a bola não estava mais em jogo. Após o fim da partida, dizem que houve quem desse tiros de revólver no rádio, para silenciar a voz do locutor “amigo da onça”.
 
Cândido NorbertoNo outono de 1949 o clube Nacional do Uruguai comemorava o seu jubileu e convidou o Grêmio para um amistoso festivo. O repórter Cândido Norberto foi destacado para fazer a transmissão da peleja, algo inédito no Rio Grande do Sul, tendo em vista tratar-se de um evento internacional. Na data histórica de 14 de maio aconteceu o choque de tricolores no Estádio Centenário. O Nacional tinha vários atletas que seriam campeões do Mundo em 50, como o arqueiro Aníbal Paz, Tejera e Gambetta. Além disso, seu ataque era composto por monstros como Walter “el botija” Gómez, que logo faria sucesso no River Plate de Buenos Aires, e Atílio Garcia, até hoje o maior goleador da história do Nacional. Já o Grêmio pisou o retângulo verde escalado da seguinte maneira pelo técnico Otto Pedro Bumbel: Sérgio, Clarel e Joni; Hugo, Adams e Alegretti; Teotônio, Hermes, Geada, Álvaro e Detefon. Esse time seria o campeão gaúcho da temporada, após eliminar o Inter em um famoso Gre-Nal vencido com um gol de Geada.

Uma das armas daquele quadro, Breno Steffen começara a sua bonita trajetória no 15 de Novembro de Campo Bom e, após passagem pelo desaparecido Esporte Clube Esperança, chegou ao Grêmio. Segundo o goleiro Sérgio, Geada era um fora de série, capaz de conduzir as ações da equipe com maestria e inteligência. Importante também ressaltar a presença do atacante Detefon, ou Ariovaldo Vendt. Com velocidade e picardia, Detefon realizava insinuantes ações na ponta canhota do onze mosqueteiro. Um pouco mais atrás o meia Hermes, um dos primeiros negros da história tricolor, fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque.
 
Para a alegria do presidente Saturnino Vanzelotti o Grêmio vence a contenda pelo placar de três a um, gols de Teotônio, Geada e Alegretti. Seu sócio na formação daquele time também exultava. Atrás das lentes de seus indefectíveis óculos escuros, o técnico Otto Pedro Bumbel vira muitas façanhas iguais a essa. Sobretudo aquelas que, em 46 e 49, ajudaram o Grêmio a quebrar a hegemonia do “rolo compressor” colorado na eterna disputa entre os rivais no campeonato gaúcho. Para muitos jogadores Otto era uma espécie de psicólogo, que tentava ajudar os atletas no campo pessoal, além de dar ênfase também na preparação física. Seu destino seria a Europa, onde trabalharia em Portugal e Espanha, sendo campeão da Copa General Franco com o Atlético de Madrid em 1965.

Durante aquela jornada em terras uruguaias, Cândido Norberto narrava as jogadas sem nenhum tipo de requinte. Pelo contrário, o corajoso “speaker” não tinha sequer linha de retorno e só foi saber que a transmissão por ondas curtas fora um sucesso após o final do jogo. Chamado por Ibsen Pinheiro de “mestre do improviso”, Cândido seria, anos mais tarde, o criador do famoso programa de rádio Sala de Redação, além de atuar também em jornais, sempre com uma visão perspicaz dos fatos.
 

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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