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16 de junho de 2009      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

O marinheiro Gentil

Didi acabou virando técnicoChama a atenção a ausência de técnicos negros no nosso futebol. Afinal, se analisarmos a formação da maioria das equipes, tanto nas séries A, B ou C, veremos que muitos dos jogadores são representantes da raça negra. Ela está presente no processo de miscigenação que resultou na identidade do brasileiro. Por isso, faremos aqui uma breve divagação sobre o tema.

Após pendurar as chuteiras, Didi foi ser técnico. Obteve triunfos memoráveis com a seleção peruana na Copa de 70, desfazendo a máxima de que o bom treinador geralmente foi um jogador medíocre. Depois da epopéia mexicana, dirigindo o River Plate de Buenos Aires, mais uma vez Didi foi personagem, marcando com êxito a sua passagem no país vizinho. A proposta no clube era, então, valorizar as categorias de base, lançando os talentos “prata da casa”. Muitos jovens jogadores foram lançados por Didi, entre eles Norberto Alonso, mais tarde um dos campeões da Copa de 78. Quando Didi é demitido, após um fracasso contra o San Lorenzo, “Beto” Alonso fica inconformado. “Siempre se castiga al caballo más noble”, diria ele. Em 75, Didi comandaria o Fluminense no campeonato brasileiro, ocasião na qual chegou às semifinais, sendo eliminado pelo Inter de Minelli.
 

Mesmo não sendo brasileiro, cabe aqui uma referência ao trabalho de Francisco Maturana. Este colombiano nascido em Quibdó, transformou-se de um aplicado zagueiro do Nacional de Medellín, clube que defendeu por dez anos, em um técnico respeitado. Comandando o próprio Nacional foi campeão da Libertadores de 89, após derrotar o Olímpia na final. Tal proeza credenciou Maturana para o cargo de técnico da seleção. Sob sua batuta, a Colômbia obteve o passaporte para a Copa da Itália em 90. Eram tempos de Valderrama, Rincon e Redin. O time faz uma bela campanha na primeira fase, classificando-se em um difícil grupo, que contava ainda com Alemanha, Iugoslávia e Emirados Árabes. Tudo ia bem até que, em um gesto de inocência típico do jogador colombiano, o espalhafatoso goleiro Higuita perde a bola para o camaronês Roger Milla, durante a partida das oitavas em Nápoli. O veterano jogador faz o gol que elimina a equipe sul-americana do torneio. Mas a Colômbia agora não era mais uma surpresa. Maturana, a quem Jorge Valdano chamou certa vez de “sonhador inteligente”, foi sem dúvida um dos responsáveis por essa nova realidade.
 
Gentil cardosoQuando da inauguração do estádio Beira Rio, Valmir Louruz formava a dupla de zaga colorada com Scala. Como técnico, levou o Juventude à conquista da Copa do Brasil de 99, façanha que garantiu o time da serra gaúcha na taça Libertadores do ano seguinte. Com a sua maneira serena de comandar, montou um grupo coeso, que não se assustou com o favoritismo do Botafogo e faturou o caneco.

Talvez o primeiro técnico negro no Brasil tenha sido Gentil Cardoso. Como suboficial da Marinha, viajou pelo velho mundo, desvendando os segredos do futebol inglês e do sistema WM. Sempre com o seu bonezinho xadrez na cabeça, Gentil começou a desenvolver suas idéias no Bonsucesso de 31. Nessa época, o pequeno clube carioca contava em suas fileiras com Leônidas da Silva, que mais tarde seria o “diamante negro”. Em suas navegações, Gentil esteve também em Rio Grande, onde ajudou a montar a equipe do Riograndense, campeão gaúcho em 39. Sua passagem pelo Fluminense em 46 é lembrada até hoje. Com a frase antológica, “Dêem-me Ademir e eu lhes darei o título”, bancou a contratação do célebre centroavante, que andava em baixa no Vasco. Ademir não só foi trazido como fez o gol do título, concretizando a profecia de Gentil. Em 53, no Botafogo, é ele a receber o desconhecido Garrincha, no dia de seu primeiro treino no clube. Gostava de se auto proclamar como “o moço preto”, traço de um recalque que lhe acompanharia sempre. Por outro lado, Flavio Costa era o “moço branco dos grandes”, sempre lembrado para dirigir a seleção brasileira. Outra mania de Gentil era promover uma espécie de tribunal dentro do vestiário. Era escolhida uma comissão que deveria “julgar” a atuação dos companheiros. Porém, ao invés de surtir qualquer efeito positivo, esta polêmica medida não raro atiçava a desunião e o ciúme dentro do elenco.
 
Sonhando com o jogo que amava, Gentil atravessou mares bravios em busca do conhecimento, de novas táticas do futebol. Apesar do preconceito, cimentou seu nome na história, deixando um legado que, embora bastante folclórico, permanece a instigar nossa curiosidade sobre o esporte.
 

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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