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RIVA VERSUS RIVA

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26 de janeiro de 2010      Por Lúcio Saretta *   Email
Serpentinas brancas e papel picado cobrindo o verde gramado do Monumental de Núñez em uma noite fria de Buenos Aires.

A primeira Copa do Mundo de que tenho lembrança, é a da Argentina. Lembro-me de Luque, o bigodudo centroavante platino fazendo gols naquele jogo contra o Peru. Memórias distantes de uma criança que ainda não entendia bem as coisas.

Foi essa também a última Copa de Roberto Rivellino, o canto de cisne de um guerreiro do nosso futebol. Lesionado, ele não pôde contribuir com todo o seu talento. O tempo também pesava contra ele. Àquela altura, Rivellino era o último remanescente da turma de 70 ainda na Seleção. No México, ele tinha sido um dos mais jovens do elenco.


Roberto RivelinoO ambiente do grupo era saudável e Rivellino gozava de grande popularidade entre os companheiros. Era “bigode” pra cá, “orelha” pra lá. Mas o craque bonachão era quase sempre chamado de “Riva”. O Brasil foi derrubando os adversários como uma fileira de dominós, até chegar à final contra a Itália de Riva. Itália de Riva? Calma, pessoal. Não estou fazendo confusão. Os peninsulares também tinham o seu Riva.

E não era um Riva qualquer. Gigi Riva foi um dos maiores jogadores italianos surgidos depois da Segunda Guerra Mundial. Um goleador implacável, simplesmente o maior de toda a história da seleção italiana com 35 conquistas. Além disso, Riva foi o grande herói do memorável e solitário “scudetto” do Cagliari. “Paladino della Sardegna”, como certa vez escreveu um jornalista, Riva foi adotado pela ensolarada ilha, sempre tão esquecida e desprezada pela parte rica da Itália. Depois de jogar pelo Legnano da terceira divisão, Riva incorporou como ninguém o espírito do Cagliari, e o clube nunca mais foi o mesmo depois disso. O ápice de tudo foi em abril de 1970, quando o time do técnico Manlio Scopigno venceu o Bari e botou a mão na taça. Antes da partida, como se fosse um cantor romântico, Riva jogou flores para a torcida, num gesto imortalizado pelas câmeras de tv. Carismático, vencedor e, acima de tudo, artilheiro contumaz. A Itália naturalmente passou a apostar em Riva como o grande nome para a Copa do México.

Gigi RivaMas não foi bem assim, o bravo atacante não rendeu o esperado, talvez pressionado pela enorme expectativa popular. Foram três gols, dois contra os anfitriões e um na fantástica contenda com a Alemanha. Na final, a Itália pegaria justamente o Brasil do nosso Riva. Interessante que, além da coincidência do nome, havia o fato de ambos jogarem com a camisa onze e terem um verdadeiro canhão na perna esquerda. Não sei se eles chegaram a ficar cara a cara durante a partida, ou se houve algum choque ou dividida entre os dois. Mas quem ficou com os louros da vitória foi o “Reizinho do Parque ”, alcunha dada a Rivellino pelo jornalista Antônio Guzman.

Desde cedo paparicado pela massa corintiana, Riva teve a dura tarefa de conduzir o time em uma espécie de travessia do deserto, o longo calvário dos anos sem título. Em outro clube talvez a espera não fosse tão difícil, mas o Corinthians sempre esteve acostumado a vencer. Com Gigi Riva foi o contrário, já que para o Cagliari, vencer o campeonato foi uma façanha única, um momento belo e fugaz, que nunca mais se repetiria. Depois daquela tarde no Estádio Asteca, Riva encontraria Riva mais uma vez. Foi no estádio Olímpico de Roma, durante uma excursão do Brasil à Europa em 1973. O nosso bom Roberto agora vestia a camisa dez, herdada de Pelé. Era apenas um amistoso e a Itália venceu, atenuando um pouco a dor pela derrota de três anos antes. Nesse jogo, Riva alcançou Giuseppe “Peppìn” Meazza na tabela de goleadores da “azzurra”. Após uma saída em falso do goleiro Leão, o carrasco italiano pegou o rebote e mandou para as redes. Foi um duro golpe para o Brasil, que não perdia há 36 partidas.

Enquanto isso, a relação de Riva com a Fiel ia se deteriorando aos poucos, muito em razão do famigerado jejum de títulos. O triste fim veio depois da decisão perdida para o Palmeiras no campeonato paulista de 74. Injustamente culpado pelo novo fracasso, o craque acaba vendido ao Fluminense. Males que vem para bem, com a camisa tricolor Riva conquistaria dois campeonatos cariocas, sendo uma das bandeiras do esquadrão montado pelo esperto presidente Francisco Horta. Quanto à Gigi Riva, ele permaneceria até o fim da carreira vestindo as cores “rossoblu” do Cagliari. Embora tenazmente assediado pelas poderosas Juventus, Inter e Milan, Riva optou pela lealdade ao povo sardo. Segundo alguns cronistas, essa decisão, embora repleta de nobres valores, foi nociva para o goleador. Privado da oportunidade de jogar por uma equipe competitiva, Riva tornou-se prisioneiro da ilha que tanto amava. Mas o seu recado já tinha sido dado. Assim como Rivellino, Riva foi um exemplo de caráter e valor humano admirado mesmo pelas torcidas rivais, fato que só ocorre com os monstros sagrados do futebol.
Lucio Humberto Saretta* Lúcio Humberto Saretta é escritor (autor de Alicate contra Diamante e outras histórias do esportes - Editora Maneco - Ano 2007) e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email
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Página adicionada em 26 de janeiro de 2010.
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