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  Craques da Bola                                                 + LUCIO SARETTA
1° de março de 2010      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 
 
Ases no batente
 
Dida no FlamengoUm dos maiores jogadores da história do Flamengo foi, sem dúvida, Dida. Quando o rubro-negro conquistou seu segundo tricampeonato carioca em 1955, Dida formava uma entrosada ala esquerda de ataque junto com outro rapaz de Maceió, o ponteiro Zagallo. Edvaldo Alves de Santa Rosa vestiu a camisa do Flamengo por dez anos, sendo por muito tempo o maior goleador histórico do clube. Isso durou até o surgimento de Zico. Em fevereiro de 1979, jogando contra o Goytacaz, o “galinho” quebrou o recorde de Dida, aliás, seu ídolo de infância. Para atingir essa marca, Zico fez muitos gols de falta. Ele era um grande batedor, mas se engana quem pensa que o efeito malicioso de seus chutes com a pelota parada seja obra do acaso. Não. Apesar de craque nato, Zico era também um abnegado, ficando até mais tarde depois dos treinos, lapidando sua arte de forma incansável.
 
Assim também era Neto do Corinthians, famoso por gols antológicos dentro do quesito consagrado por Zico. O rubro negro, inclusive, foi vítima dos petardos do “xodó da Fiel”. Foi no Maracanã, durante o campeonato brasileiro de 1991. Nessa ocasião, o ilustre filho de Santo Antônio da Posse estufou as redes do bom goleiro Gilmar, despachando um verdadeiro “pombo sem asa” em cobrança de falta quase da intermediária do campo. Esse gol deveria ser guardado dentro de uma caixinha de veludo, pois trata-se de uma obra prima. Muito bem. Neto virou ídolo da massa corintiana graças a momentos como esse. Rebelde, falastrão, foi o grande timoneiro da equipe que venceu o Brasileirão de 1990. Eis aqui o onze mosqueteiro daquela final: Ronaldo, Giba, Marcelo Dijian, Guinei e Jacenir; Márcio, Wilson Mano, Neto e Tupãzinho; Fabinho e Mauro. Técnico: Nelsinho Batista.
 
Interessante a maneira de Neto comemorar os gols. Após pegar impulso com uma corrida em direção à torcida, ele deslizava de joelhos na relva , com um braço nas costas e o outro erguido no ar. Toda essa eloqüência combinava bem com o caráter pouco convencional do meia. Porém, até mesmo os ases do esporte precisam suar para alcançar seus objetivos. Assim como um pintor ou um escritor trabalha incansavelmente para atingir o seu ápice criativo, o atleta, sendo dedicado, igualmente persegue a perfeição. Como bem disse o pintor Paul Klee: “A gente encontra o próprio estilo quando não consegue fazer as coisas de outra maneira”. O estilo de Neto bater faltas foi sendo moldado desde os seus tempos no Guarani, quando ele dedicava-se aos treinos com ardor juvenil. A repetição quase mecânica dos movimentos produziu um admirável verdugo para os arqueiros contrários.
 
Jose SanfilippoOutro exemplo de craque instintivo, mas que logrou burilar a sua técnica através de um trabalho metódico, é o do argentino Sanfilippo. Nascido futebolisticamente no San Lorenzo, José “Nene” Sanfilippo, foi artilheiro do campeonato de seu país em quatro oportunidades seguidas, de 1958 a 61, um recorde ainda não superado. Oportunista, dono de grande visão de jogo e combativo, brilhou também na seleção argentina. Na análise do conceituado jornalista Julio César Pasquato, Sanfilippo incorporou a atitude de goleador contumaz e: “se esmeró en esa especialidad con perseverancia casi obsesiva, quedándose en el campo de entrenamiento hasta muy tarde(...)practicando el remate de cualquier distancia y posición”. Essa disposição se refletia no rendimento de Sanfilippo, que inclusive jogou no Bahia no final de sua carreira, sendo lembrado até hoje por suas atuações no clube nordestino.

Sem trabalho, é difícil atingir o sucesso. Por isso vale a pena resgatar o caso de Larry Bird, do time de basquete do Boston Celtics. A sua alvorada diária, lá por seis horas da manhã, era transcorrida alegremente em um ginásio, cobrando cerca de quinhentos lances livres. E Larry decidia os jogos, muitas vezes através de um arremesso com a bola morta. Eram dias dourados para o Celtics, onde Larry dividia as ações na quadra com feras do calibre de Robert Parish, Kevin McHale e o saudoso Dennis Johnson.

A minha humilde conclusão é que o atleta, por mais talentoso que seja, sempre pode melhorar sua técnica através do treinamento. Essa dedicação contagia, inclusive, o resto do grupo, servindo de estímulo para atingir conquistas coletivas. Por isso é impossível não se comover com esses estupendos jogadores, que, a despeito de sua genética superior e privilegiada para o esporte, com louvável disciplina passam horas e horas praticando, praticando, praticando...
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* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos
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