Arquivo
  Especiais
  + Futebol
  PERFIL              História do Atlético     Arquivo do Brasileirão          + Artigos
Poleiro de pato é no chão
 
Publicado em 07 de abril de 2010            Por Lúcio Saretta *
 
Francisco AlvesRubens Soares era um destacado pugilista carioca da década de trinta. Peso-médio, além de impressionar com seus punhos, ele tinha um lado que cativou o grande Francisco Alves: o de compositor de sambas. Um de seus parceiros era Mario Lago, que, nas minhas recordações de infância, sempre representava, como ator, um inocente e simpático velhinho nas novelas das sete horas. Pois bem, juntos eles fizeram a música “Poleiro de pato é no chão”, gravada por Nelson Gonçalves em 1977. A letra conta a história de um pato que arma um poleiro no quintal, gerando polêmica com o galo. No mundo do futebol, sabemos bem que o Atlético Mineiro é conhecido como o “Galo das Alterosas”. Explica-se. Houve uma vez um galo carijó invencível nas rinhas de Belo Horizonte, justamente na época em que o Atlético ganhava torneios em série, conduzido pelo trio Said, Jairo e Mario de Castro. Daí o apelido.
 
Em 1971 foi disputado pela primeira vez o campeonato brasileiro de clubes. Na ocasião, o título foi definido em um triangular, do qual fizeram parte Botafogo, São Paulo e o próprio Atlético. Essa estranha fórmula nunca mais se repetiu, mas foram encontros cheios de emoção e gols memoráveis. No primeiro jogo, o Atlético recebeu o São Paulo no Mineirão. O tricolor era dirigido por José Poy, ex-goleiro do clube, argentino de nascimento e que no início da carreira como jogador defendeu o Rosário Central. Alguns dos valores da equipe eram os laterais Gilberto “Sorriso” e Forlan, o goleador Toninho Guerreiro, natural de Bauru e já desaparecido, além do meia Gérson, o famoso “canhotinha de ouro”. Ou seja, um conjunto forte e que vinha da conquista do bicampeonato paulista. Porém, o “Galo das Alterosas” cantou mais alto, mostrando que quem mandava no terreiro era ele.

O lance capital do combate foi a cobrança de falta executada com violência pelo lateral e capitão alvinegro Oldair. Naquela fração de segundo em que o couro viajava a uma velocidade sensacional, Gérson, um dos homens da barreira, talvez temendo pela sua saúde, instintivamente abaixou a cabeça. Resultado: a bola estufou as redes do arqueiro-galã Sergio, agitando a turba e fazendo balançar o duro cimento das arquibacadas.
Final de 1971Apesar da lisura do resultado, Poy conclamou seus asseclas para uma reação. E quem acabou “pagando o pato” foi o Botafogo. No segundo jogo do triangular, realizado no Morumbi, o onze carioca foi massacrado pelo placar de 4 a l. Destaque para o ponteiro pernambucano Tertuliano Severiano dos Santos, ou simplesmente Terto, que logrou vazar a meta inimiga duas vezes. Toninho e Forlan também soltaram o grito de gol. Nei descontou para o Botafogo. Foi um duro golpe para o time da estrela solitária. Afinal, a torcida ainda estava traumatizada com a perda do campeonato carioca alguns meses antes.

Como esquecer a conturbada final contra o Fluminense e o gol de Lula no apagar das luzes? Para se redimir de tamanho revés, e não morrer na praia pela segunda vez no ano, o time do técnico Paraguaio teria que se superar. Tudo seria decidido em um choque de alvinegros no Maracanã, onde o Botafogo hospedaria o Atlético, precisando vencer por uma diferença de cinco gols. Ao Galo bastava um empate, enquanto que o São Paulo torceria por uma vitória simples do Botafogo para ser campeão. O que, aliás, era um resultado amplamente possível. Paraguaio dispunha de um farto material humano, desde o grande zagueiro Djalma Dias até o craque Jairzinho e o já citado Nei Oliveira no ataque.

Isso não quer dizer que o time mineiro estivesse preocupado. Concentrado sim. Para passar o tempo e descontrair antes da peleja, o técnico Telê Santana e o centroavante Dario entregaram-se de corpo e alma em uma animada partida de pingue pongue. Telê, que em seus tempos como jogador tinha o apelido de “banquete de cachorro” devido à sua magreza, desferia raquetadas cheias de veneno para desespero do pobre Dario. O artilheiro do “peito de aço” acabou dando um mau jeito na coluna na tentativa de responder as investidas do seu comandante. Mesmo assim, ele acabou confirmado para a decisão. Junto com ele, pisaram no tapete verde do Mario Filho: Renato, Humberto Monteiro, Vantuir, Grapete e Oldair; Vanderlei, Lola e Humberto Ramos; Ronaldo e Tião. E o mentor intelectual da jogada que redundaria no gol atleticano foi o meia Humberto Ramos, que cruzou a pelota com açúcar para Dario vencer Wendel com uma bela cabeçada. Recuperando o amor próprio perdido em sua infância, na qual chegou a cometer pequenos furtos para fugir da pobreza, “Dadá”, com seu gesto, também conduziu a enorme massa atleticana ao maior título de sua história.

Após vencer insofismavelmente duas das maiores potências do eixo Rio-São Paulo, o clube mineiro era o legítimo campeão. Parafraseando o samba de Rubens Soares e Mario Lago, o galo mostrou quem mandava no quintal, e o pato foi grasnar em outra freguesia.
 
 
* Lucio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS

Blog: blog.clickgratis.com.br/luciosaretta/            Email: luciosaretta@yahoo.com.br
  PERFIL              História do Atlético     Arquivo do Brasileirão          + Artigos
Pesquisa personalizada
Arquivo Campeões do Futebol - www.campeoesdofutebol.com.br - Desenvolvido e mantido por Sidney Barbosa da Silva - Desde 2005
* Permitido a reprodução de todo conteúdo desde que citada a fonte e o Autor/Pesquisador