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Cobras que fumam
 
Publicado em 21 de setembro de 2010            Por Lucio Saretta *
Dizem que o hábito de fumar não combina com esporte. Inclusive, dizem também que a boemia é inimiga do atleta. A verdade é que existem histórias curiosas sobre fumantes dentro do mundo do futebol em quantidades apreciáveis.

Jogadores, técnicos e jornalistas, todos já apareceram envolvidos em algum momento com o tabaco. Paulo Santana, gremista fanático e inigualável cronista gaúcho, fumante dedicado, versou várias vezes sobre o tema. “É ridículo fumar, é antissocial fumar, é anti-higiênico fumar. Tricotar não é nenhuma das três coisas, mas tricotar não me atrai”. Lembro dele adentrando os estúdios durante certo programa de tv, ao vivo, de cigarro em punho, com seu olhar lânguido e seus comentários sobre a vida. Grande personagem.
 
No universo dos técnicos, já tivemos figuras marcantes no referido quesito. Francisco Duarte Júnior, o Teté, foi o timoneiro do grande Internacional dos anos 1950. Enquanto instruía seus pupilos no calor das batalhas, Teté não dispensava um bom palheiro. Essa debilidade fazia parte do seu ser, assim como o amor instintivo ao esporte. João Saldanha, embora de curta trajetória como técnico, e Osvaldo Brandão também foram ferrenhos adeptos dessa discutida prática.

No futebol portenho, onde o fumo sempre teve uma presença mais forte, saltava aos olhos a figura de César Menotti, com suas longas costeletas e melenas pitando seu cigarro compenetrado. Homem de opiniões contundentes dentro e fora das quatro linhas, Menotti, de certa forma, acabou sendo domesticado pelos militares, servindo involuntariamente à causa dos quartéis, quando conduziu a Argentina ao título da Copa de 1978.
 
Em outras eras, os próprios artistas da pelota faziam fumaça sem problema nenhum. Claro que ainda não havia uma real consciência sobre os malefícios do vício, pelo contrário, era uma coisa vista em filmes e associada ao luxo e sucesso. Existe uma foto do Garrincha fumando um cigarro tendo ao lado o técnico Vicente Feola, então era uma coisa totalmente liberada.

Um dos maiores ponteiros direitos do futebol brasileiro e o mais querido, “seu Mané” esbanjou talento e picardia durante a final do campeonato carioca de 1962. O Botafogo era um verdadeiro esquadrão: Manga, Joel, Zé Maria, Nilton Santos, já em final de carreira atuando como zagueiro, e Rildo; Ayrton e Arlindo; e um ataque composto exclusivamente por monstros sagrados, com Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. Flavio Costa era o técnico do Flamengo. Reza a lenda que ele teria incumbido um jovem promissor, estilista da bola, chamado Gerson para auxiliar na marcação à Garrincha. Todavia, “seu Mané” estava impossível, talvez ninguém no mundo pudesse pará-lo naquela partida. O placar final foi 3 a 0 para o alvinegro, com dois gols do camisa sete. O terceiro, de Vanderlei, contra, também surgiu após uma estocada do anjo das pernas tortas.
 
GérsonQuanto a Gerson, ainda ouviríamos muito falar dele. Ombros largos e passes certeiros, pé esquerdo privilegiado e pulmões ávidos por fumaça. Alguns anos mais tarde ele faria sucesso no próprio Botafogo, além de compor com maestria o onze canarinho vencedor da Copa do México, em 1970. Dizem que Gerson tragava seu cigarro calmamente no intervalo dos jogos, apagando-o instantes antes de voltar ao gramado. Verdade ou não, o fato é que nosso craque ficou famoso ao estrelar uma propaganda de cigarros na tv, no tempo em que não era estranho vincular um atleta com o tabagismo.

Hoje em dia causam furor notícias sobre jogadores fumando. O caso de Ronaldo, por exemplo. Bastou vazar na imprensa que o atacante tem esse hábito para vicejar a polêmica. Em pleno século 21, uma cobra que fuma. Mas uma cobra que soube confeccionar gols inesquecíveis, cheios de malícia e oportunismo. Desde aquele com a camisa do Cruzeiro, roubando a bola das mãos do grande Rodolfo Rodriguez, passando pela sua fase européia, das arrancadas no Barcelona, até chegar ao Corinthians, onde produziu duas pérolas contra o Santos na final do campeonato paulista de 2009.

Tipo excêntrico de fumante foi Jack Charlton. Hábil na arte de filar a nicotina alheia, Jack, segundo depoimento de um antigo companheiro do Leeds, seria capaz de pedir um cigarro até mesmo para a rainha da Inglaterra. Exageros a parte, louvemos o bom zagueiro que foi Jack, sempre rechaçando o couro com suas fulminantes cabeçadas e impedindo os ataques contrários com firmeza. Uma figura consagrada dentro do futebol mundial, não só pelo título com a seleção inglesa na Copa de 1966, mas também como técnico, sobretudo à frente da Irlanda, nas Copas de 1990 e 94.

Entretanto, se você estiver em Londres, tenha cuidado! Jack pode estar à espreita. Não o estripador, mas o cigarrista, pronto para filar uma porção do seu estimado maço.
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(*) Lúcio Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul (RS)
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