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27 de outubro de 2008      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

Crônica de uma polêmica inútil

O mundo do futebol é um terreno propício para discussões e debates. Afinal, cada um tem a sua opinião, do garçom que nos serve o chope, passando pelo colega de trabalho e o cobrador do ônibus. Todo mundo prefere esse ou aquele jogador, técnico ou sistema de jogo. Porém, certas polêmicas superam o momento, cristalizando-se na história. Na esquadra “azzurra” que disputou a Copa do México em 1970, muito se especulou ao redor de dois talentos que, para alguns, não podiam atuar juntos. Eram eles Sandro Mazzola e Gianni Rivera. E o que dizer da famigerada controvérsia no Internacional do fim da década de 60, que opôs Bráulio “o garoto de ouro” e Sérgio “Galocha”? Nos botequins da Rua da Praia surgiram duas correntes, como se Bráulio e Sérgio fossem candidatos a presidente. Como veremos adiante, o futebol amiúde cria debates que nos remetem à política.

O meu foco nessas mal traçadas linhas será sobre uma polêmica ocorrida no futebol argentino. Quando o nosso bravo vizinho venceu a Copa do México em 1986, criou-se um amplo debate sobre duas “escolas” antagônicas. Uma, representada pelo estilo de jogo da seleção que venceu aquela Copa, solidário, europeu, prático e baseado na marcação. Seu mentor, Carlos Bilardo. Ao mesmo tempo, o estilo mais romântico e ofensivo da seleção de 1978 conquistou vários adeptos. A figura que simbolizava essa corrente era César Menotti.

Também conhecido como “el flaco”, Menotti hoje talvez possa ser visto como uma sombra do passado com idéias obsoletas. No seu auge, porém, ele era todo um símbolo, um personagem altamente marcante, um espelho fiel da tradição argentina em que o futebol exuberante e ganhador era a regra. Quando jogador, Menotti destacou-se pela potência de seu chute. Existe uma anedota que conta sobre uma partida entre Boca e Rosario Central, time pelo qual ele atuava, em que o juiz teria marcado uma falta inexistente, com o único propósito de ver Menotti “patear”. Com seu cabelo comprido e suas indefectíveis costeletas, “el flaco” começou a carreira de técnico no Huracán, sagrando-se campeão do torneio Metropolitano de 1973. Desse time podemos destacar os habilidosos meias Brindisi e Babington, além do intuitivo René Orlando Houseman, um ponta direita da mais fina estirpe. Graças a essa notável conquista, as portas da seleção se abriram para Menotti. Suas convicções passavam também pela literatura. Usando uma definição de Jorge Luís Borges sobre o que seria a filosofia, ele divaga: “o futebol é ordem e aventura”. Em 1978 ele foi o condutor ideal para aquela equipe que, jogando em casa, não podia deixar o título escapar. Foi um torneio conturbado, inclusive com suspeitas quanto à lisura do resultado da partida entre Argentina e Peru. Havia também o estigma da ditadura militar. E como esquecer do embate entre nossa seleção e os anfitriões, que terminou em um feio empate sem gols? Não deixa de ser contraditório classificar o time de Menotti como dono de um futebol bonito, quando subterfúgios pouco convencionais foram usados para erguer a Copa.

Quanto à seleção de Bilardo, ela também está imersa em certos paradoxos. Por exemplo, embora vista como modelo de um jogo combativo e opressor, teve méritos em proporcionar lances de grande ousadia técnica e que ficaram gravados de forma indelével no imaginário popular ao redor do mundo. É claro que a maioria desses lances surgiu graças ao toque de Midas de Maradona, um jogador fora de série e certamente um dos maiores craques do futebol argentino em sua rica história. E aqui repousa mais um disparate. O homem de confiança e capitão de Menotti era Passarella, que, embora soubesse o que fazer com a bola e marcasse muitos gols, era um defensor. Por outro lado, o representante de Bilardo dentro do retângulo verde era Maradona, um rebelde que caberia como uma luva no esquema de Menotti.

Portanto, parece que toda essa discussão carece de sentido. Voltando à política, seria algo como escolher entre Hilary Clinton e Barack Obama, para ficarmos em uma disputa do momento. Hilary seria uma espécie de Bilardo de saias, pragmática, realizadora e eficaz; Obama seria como Menotti, sonhador e lírico. No fundo, sabemos que ambos são farinha do mesmo saco, quadros de um mesmo partido com propostas semelhantes. De qualquer forma, enquanto existiu, a polêmica entre “menottistas” e “bilardistas” capturou de maneira ímpar o absurdo que faz parte do futebol, controverso e contraditório como o próprio homem.

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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