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17 de novembro de 2008      Por Lúcio Saretta *   Email Mais artigos
 

O Circo Chegou

Que saudade do tempo em que o circo chegava na cidade, com suas lonas coloridas e seu mistério. Feras enjauladas e luzes insinuantes faziam o povo sonhar com alegria e emoção. A graça do palhaço, a coragem do trapezista e a astúcia do mágico no picadeiro eram momentos de pura diversão. E não foram poucos os talentos que saíram da ribalta circense para deslumbrar as platéias esportivas.

Como, por exemplo, Primo Carnera, campeão mundial dos pesos pesados em 1933. Antes de ser uma estrela do boxe, Carnera costumava exercitar seus músculos como lenhador em Veneza. Dono de um físico extravagante, ele mais tarde atuou como halterofilista em um circo de Paris. Mas seu destino estava na América. Assim como tantos italianos que se tornaram pugilistas nos Estados Unidos, Carnera seguiu viagem deixando para trás a fantasia do picadeiro. Mas não perdeu a sua inocência. Envolvido por gângsters que passaram a empresariar sua carreira, Carnera é considerado até hoje um embuste dentro da “nobre arte”. Ainda que para o povo italiano ele seja um herói, o fato é que a luta do título contra Jack Sharkey permanece envolta em suspeitas até hoje. Já no ano seguinte Carnera perderia o título para Max Baer. Porém, esse reinado relâmpago colocou seu nome na história. Abandonado pela máfia que o controlava, o ingênuo gigante, até hoje o mais alto campeão da categoria, passou momentos difíceis. Obrigado a atuar no espetáculo deprimente da luta livre para sobreviver, ele de certa forma voltou às suas origens circenses.

Enquanto Primo Carnera era notícia de jornal em Nova Iorque, na sua terra natal um outro fenômeno acontecia. Era a Juventus que vinha conquistando “scudettos” em série, massacrando quem quer que tentasse se opor à tradição da camisa alvinegra. Um dos aríetes daquela equipe era o meia direita Renato Cesarini. Embora tenha nascido em Senigallia, perto de Ancona, às margens do Mar Adriático, Cesarini emigrou ainda criança para a Argentina. Já adolescente, ele integrou um grupo de saltimbancos em Buenos Aires, aprendendo acrobacias e cambalhotas que mais tarde seriam úteis naquela que seria sua grande paixão, o futebol. Seus primeiros contatos sérios com a pelota foram no clube Chacarita Juniors, que ficava perto de um famoso cemitério. O clube recebeu o apelido de “funebreros” e a imprensa não tardou em aproveitar-se da coincidência, dando manchetes em que o Chacarita “enterrava” ou “cavava a fossa” dos adversários. Com seu futebol repleto de luxos e improvisos, Cesarini chegou à seleção da Argentina e acabou levado pela Juventus, participando da campanha do pentacampeonato de 30 a 35. Era uma equipe fora de série. Além do trio defensivo Combi, Rosetta e Caligaris, que qualquer criança recitava de cor, destacavam-se os argentinos Luisito “doble ancho” Monti e Raimondo Orsi. Esse último, grande amigo de Cesarini e exímio violinista, era chamado pelos italianos de “Paganini del pallone”.

Nesse instante, eu gostaria de exaltar a nobreza do palhaço, figura essencial dentro de qualquer circo que se preze. Foi na TV Itacolomi de Belo Horizonte que a criançada vibrava com as piadas do palhaço Moleza. Ele não viveria para saber, mas seu filho seria um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Falo de Toninho Cerezo, que na terna infância às vezes dividia a ribalta com o pai, adotando a alcunha de Dureza. Cerezo desde cedo se identificou com as cores do Atlético Mineiro, clube que o revelou. No campeonato brasileiro de 77, o Galo das Alterosas realizou uma brilhante campanha, chegando invicto à final do certame contra o São Paulo. Porém, nunca foi fácil a vida do palhaço. Após um empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, chega a hora da loteria das penalidades máximas. Custodiando o arco tricolor estava um grande especialista nesse tipo de desempate. Falo de Valdir Perez, o “doutor pênalti”. Cerezo desperdiça sua cobrança e o Galo acaba perdendo o título de forma cruel. Ainda haveria tempo para mais um dissabor na vida de Dureza, a tragédia da Espanha em 82. Nada disso abalou o valente meio campista, que, jogando na Itália, viveria momentos felizes com a Sampdoria em 91. A redenção total viria com o São Paulo de Telê Santana logo depois.

Na canção “Chão de Estrelas”, Silvio Caldas e Orestes Barbosa versaram com maestria: “Minha vida era um palco iluminado eu vivia vestido de dourado palhaço das perdidas ilusões”. Assim como o circense, o artista da bola vive com intensidade os altos e baixos da vida.

* Lúcio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS  -  Email Mais artigos

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