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A mão amiga do esporte
 
Publicado em 22 de maio de 2010            Por Lúcio Saretta *
 
Jack Charlton no Leeds United aos 17 anos, em 1952Ao contrário do que acontece aqui no Brasil, onde vemos jovens talentos do esporte sendo tratados à base de pão de ló, paparicados pelos dirigentes, endeusados pela mídia e pagos com salários astronômicos, em alguns países do hemisfério norte a situação é diferente.

Lá, os novatos devem primeiro incorporar o espírito da disciplina, cumprindo tarefas impensáveis dentro da mentalidade vigente por aqui. Jack Charlton abraçou o futebol com o intuito de escapar do trabalho nas minas de carvão, destino muito provável para os habitantes da sua cidade natal, Ashington. Em seus primeiros dias como atleta profissional do Leeds, nos anos 1950, o futuro zagueiro da seleção inglesa dividia a rotina dos treinos com o trabalho de catar ervas daninhas no gramado do clube.

Criado nos viveiros do Manchester United, David Platt limpava as chuteiras e os vestiários dos jogadores veteranos. Na Copa da Itália de 1990, Platt ficaria famoso ao marcar um golaço contra a Bélgica do grande goleiro Preud’homme, classificando o “english team” às quartas de final da competição.
 
Earvin “Magic” Johnson, por sua vez, foi incumbido da missão de servir o astro Kareem Abdul Jabbar. O calouro dos Los Angeles Lakers deveria cuidar para que nada faltasse ao pivô daquele que foi um dos maiores times de basquete de todos os tempos. Providenciar o jornal todas as manhãs, ir ao mercado ou comprar cachorro quente para o craque eram funções típicas de Magic. Mais tarde, ele seria a grande estrela do time, mas Kareem nunca se importou em dividir os holofotes. Ao invés disso, ele ajudaria o novato a desenvolver o seu jogo e também a crescer como profissional.

Grandes equipes são feitas através da mistura do ímpeto da juventude com a voz da experiência. Kareem pertencia a uma época romântica, embora ainda tivesse muito a dar pelo esporte nos anos 1980. Antes dele, os pivôs eram simplesmente gigantes estáticos que encestavam o couro burocraticamente. Através do seu famoso gancho, Kareem deu novo sentido ao basquete, aproximando-o da arte. Essa jogada inovadora, bela e mortal, segue viva na memória do torcedor. É claro que ter um secretário como Magic Johnson ajudou bastante. Afinal, passado o período em que o assessorou fora das quadras, o armador continuou servindo o velho ídolo, agora com passes açucarados para Kareem marcar muitos pontos.
Rocky MarcianoO esporte sempre trouxe consigo exemplos de companheirismo. Quando Rocky Marciano pendurou as luvas, o posto de campeão dos pesos pesados foi ocupado por figuras não tão marcantes ou carismáticas como, por exemplo, Ingemar Johansson e Floyd Patterson. Mas, quando em 1962 Sonny Liston entrou em cena, o boxe teve novamente um protagonista. Não no sentido técnico, embora Liston tivesse suas qualidades. O que chamava a atenção era a sua aparência física, uma montanha de músculos assustadora. Assim sendo, seus oponentes já subiam no ringue em desvantagem psicológica. Segundo alguns observadores, o gancho de esquerda de Liston era comparável ao de Jack Dempsey, lendário pugilista da década de 1920. Como Liston era semi analfabeto, um de seus “sparrings” lia para ele. Esse rapaz, que teve em Liston uma fonte de inspiração no início da sua carreira, seria um dos grandes nomes da história do esporte. Falo de George Foreman. Solidário com o colega, Foreman buscou amenizar a escuridão em que Liston vivia, trazendo-o para perto do mundo das letras.

O coração generoso de Foreman também encontramos em Cláudio Adão, notável artilheiro do nosso futebol. Quando Paulo Cezar Caju sentiu as garras das drogas e do alcoolismo se apoderarem dele, foi buscar ajuda com Adão. Como na fábula da formiga que abre as portas da sua casa para a cigarra, Cláudio não titubeou em dar guarida ao amigo, hospedando e incentivando Caju a abandonar o vício. Desde que seu talento surgiu no Botafogo durante a final da Taça Guanabara de 1967 contra o América, Paulo Cezar sempre foi um jogador badalado, tendo atingido os píncaros da glória ao vestir a camisa canarinho na conquista da Copa do México em 1970. Em contrapartida, Cláudio Adão nunca teve chance na seleção principal, mas o seu instinto goleador fez dele uma peça fundamental nos times em que passou.

Em 1974, na partida do Santos contra a Ponte Preta que marcou a despedida de Pelé do clube peixeiro, Cláudio deixou a sua marca no placar. Alguns chegaram a dizer que ele seria o substituto do Rei. Uma fratura na perna atrapalhou um pouco sua trajetória, que continuaria no Flamengo e em mais de vinte outras agremiações, atingindo a respeitável marca de 591 gols.

No mundo em que vivemos, altamente competitivo e egoísta, poucas vezes encontramos espaço para gestos de bondade. Contudo, se olharmos para certos exemplos vindos do esporte e seus atletas, quem sabe possamos aprender a estender uma mão amiga àqueles que precisam.
 
 
* Lucio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS

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