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O Adão sem pecados
 
Publicado em 06 de julho de 2010            Por Lúcio Saretta *
 
Astrada com a camisa do River PlateNo começo, era apenas um pontinho riscando o céu azul. Aos poucos foi crescendo e tomando a forma de um avião, à medida que se aproximava do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. No saguão, dezenas de torcedores do Grêmio aguardavam ansiosos. Afinal, um dos passageiros do vôo que chegava era Leonardo Astrada, uma das maiores contratações da direção tricolor para a temporada de 2000. O avião pousa e começa a rodar lentamente até o portão de desembarque.

A euforia da pequena multidão se transforma em delírio quando Astrada, também conhecido como “El Jefe”, aparece. O contato é rápido, o argentino logo embarcando em uma besta e seguindo para um local desconhecido. No torneio Apertura de 1999, “El Jefe” conquistara o seu décimo título com o River Plate, um recorde até então. Volante clássico, de toques curtos e precisos, além de tenaz marcador, seria ele o homem a vestir a jaqueta número 5 do novo time mosqueteiro. Além de Astrada, o técnico Antônio Lopes teria à sua disposição jogadores consagrados, como Roger, Danrlei, Zinho e o menino prodígio Ronaldinho.
 
Enquanto isso, em cima da Serra, o Caxias começava a lutar por uma vaga na fase final do Gauchão. Para tanto, a equipe grená deveria disputar uma seletiva. Dessa peneira sairiam cinco times que iriam juntar-se à Internacional, Grêmio e Juventude na fase quente do certame. Na primeira partida, um empate em casa com o Veranópolis, começou a surgir a figura carismática do centroavante Adão. Autor de um dos gols, ele seria protagonista de batalhas memoráveis no comando do ataque.

Adão era um rapaz alto, de semblante calmo e sorridente. E, ao contrário do seu homônimo que foi expulso do Paraíso por morder a fruta proibida, não costumava pecar na hora das conclusões. Seu estilo era simples, sem enfeites ou jogadas luxuosas. Porém, com suas largas passadas e um oportunismo acima do normal, Adão foi castigando os goleiros adversários. Na seletiva, ele ainda marcaria contra Pelotas, Inter de Santa Maria e São José, ajudando o time a passar de fase.
Caxias Campeão gaúcho 2000A partir de então, as emoções seriam ainda mais fortes para o torcedor do Caxias. Após uma goleada de 4 a 0 sobre o Passo Fundo, a tabela apontava uma parada dura: o clássico citadino contra o eterno rival Juventude. Com um gol do meio campista Maurício, o Caxias expugna o Alfredo Jaconi e começa a pensar no próximo adversário, o poderoso Internacional. Dessa vez, a peleja terminou com o placar de 2 a 0 para as hostes serranas, gols de Delmer e do sempre bom e correto Adão. A partir daí, o time tropeça duas vezes, contra 15 de Campo Bom e Esportivo. Mas, após uma vitória dramática contra o Santa Cruz, o Caxias tem a chance de ser campeão do primeiro turno. Para tanto, bastava vencer o Grêmio em Porto Alegre.

Em uma bela tarde de outono, o técnico Tite observa confiante enquanto o onze grená pisa o gramado do Olímpico. A partida é aberta, o couro disputado com a típica voracidade que domina as ações no meio de campo. Aos 13 minutos, o juiz Carlos Simon assinala uma falta a favor do Caxias. O experiente volante Ivair prepara-se para a cobrança. Danrlei orienta a barreira, Astrada toma o seu lugar. O chute é seco e a esfera passa por sobre a cabeça de “El Jefe”, indo morrer no fundo das redes. Gol do Caxias.

Nesse instante, começa o fim da curta passagem de Astrada pelo Grêmio. No lance, ele teria se abaixado, deixando o arqueiro vendido. Não podemos esquecer, porém, que Ronaldinho estava em campo. Em um lance de pura habilidade, ele deixa Amato em condições de marcar o gol de empate. Cinco minutos mais tarde, a bola cai nos pés de Adão, na intermediária do gramado. Com suas pernas de gazela, ele corre até o fundo do campo e toca para dentro da área, onde seu fiel escudeiro Jajá surge como um raio para marcar o gol da vitória. A presença na final estava garantida.

O adversário seria o Grêmio, vencedor do segundo turno. A essa altura o Caxias já não era considerado uma zebra e, com certa facilidade até, vence o jogo de ida no Centenário por 3 a 0. Um empate sem gols em Porto Alegre bastou para sagrar o Caxias campeão gaúcho pela primeira vez na sua história. Um título merecido, fruto do sacrifício de um grupo de abnegados e sonhadores entre os quais estava Adão, com a sua pureza e a inata virtude de marcar gols.
 
 
* Lucio Humberto Saretta é escritor e mora em Caxias do Sul/RS

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