“Eu hoje estou pulando como sapo,
Pra ver se escapo dessa praga de urubu
(...)
E eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa eu vou...” (Noel Rosa, 1930)

Todos nós sabemos – e isso se repete feito ladainha – qual foi o motivo de a camisa branca ter sido jogada às traças durante tanto tempo. O maldito “maracanazo”.

Até então, ela vinha fazendo um belo papel nos campos do Novo Mundo. Às vezes com detalhes em verde e amarelo (1914, 1917, 1918), quase sempre com outros em azul. Às vezes substituída “ad hoc” por camisas emprestadas ou compradas às pressas. Ou por modelos alternativos, como a azul e a de listras verticais em verde e amarelo.

Usamos a branquinha, em todas as suas variantes, desde 21.07.1914 (2x0 Exeter City) até o amistoso de 25.04.1956 (0x3 Itália) e o Campeonato Sul-Americano de 1957 (ver o “VAR fotográfico”). Cerca de 43 anos de vitórias e derrotas – como teria ocorrido com qualquer camisa. Com ela distribuímos mais chocolates que a Nestlé. P.ex.: ao Chile (6x0 em 1919), ao Paraguai (5x0 em 1937), ao Uruguai (6x1 em 1944), ao Equador (9x2 em 1945), à Argentina (6x2 em 1945), à Bolívia (8x1 em 1953) etc.

Com ela – e sua substituta azul – conquistamos: 3 Campeonatos Sul-Americanos (1919, 1922 e 1949, hoje chamados de Copa América), 3 Copas Roca (1914, 1922 e 1945), 2 Taças Rio Branco (1931 e 1932), 1 Taça Oswaldo Cruz (1950) e 1 Campeonato Panamericano (1952). Não foi pouca coisa.

Alguém dirá: com ela, ficamos 20 anos sem título mundial (1930 a 1950). Sim, mas com a amarelinha, tivemos 24 anos de jejum (1970 a 1994). Outrem dirá: com ela, perdemos a final de 1950, em casa. Sim, mas com a amarelinha, levamos de 7x1, na semifinal de 2014, também em casa. Vexame por vexame, se o critério fosse mantido, estaríamos usando camisa preta, de luto.

É verdade que, com a amarela – e a nº 2, o manto azul de Nossa Senhora Aparecida, segundo nosso “marechal da vitória” –, vencemos 5 Copas do Mundo enquanto, com a branca, perdemos 4. Mas com a amarela perdemos outras 12. É óbvio que a amarela tem mais vitórias. Mas também mais derrotas. Tudo isso simplesmente porque tem mais jogos nas costas. Em primeiro lugar, porque é usada há mais tempo: 65 anos, desde 28.02.1954. Em segundo, porque o futebol se desenvolveu internacionalmente, acompanhando a evolução dos transportes (maior rapidez e disponibilidade, menor preço), o que permitiu maior número de jogos e de certames entre seleções. Basta comparar: a seleção precisou de 39 anos (de 1914 a 1953) para jogar suas primeiras 151 partidas, enquanto as 150 seguintes demandaram apenas 9 anos (de 1954 a 1963).

É evidente que o sucesso que tivemos a partir de 1958 não foi decorrência da cor da camisa, mas da evolução do nosso futebol. Que teria ocorrido com qualquer cor, nem que fosse o roxo do Tabajara. E tem mais: a tragédia de 1950 também teve sua utilidade. Ninguém gosta do sofrimento nem da dor, mas eles nos amadurecem. Calejados, ficamos mais resistentes. Se não fossem as frustrações de 1938, 1982 e 1998 e o trauma de 1950, o 7x1 teria caído sobre nós como uma hecatombe de proporções bíblicas.

Além disso, como se costuma dizer no xadrez, aprendemos mais com as derrotas do que com as vitórias. São incentivos – desagradáveis, sem dúvida – para revermos nossos métodos e procedimentos. Um sucesso precoce pode ser maravilhoso, mas pode corromper o vencedor. Se tivéssemos nos acomodado com as glórias de 1938 e 1950, talvez estivéssemos hoje com o número de títulos mundiais do nosso algoz Celeste.

O problema é que nunca aproveitamos a fundo a oportunidade que as derrotas nos dão. Nem as piores. Veja-se, p.ex., este trecho de Nelson Rodrigues, em que lamenta que o fracasso da seleção em 1950 não serviu de lição para o Sul-Americano de 1957:

“Pois bem: pensei eu que o revés frente à Celeste viesse a constituir um estímulo para os nossos jogadores. Calculei que, no seu brio ferido, o quadro nacional desse tudo, e muito mais, no jogo com a Argentina. Mas eu estava enganado, amigos!” (“Manchete Esportiva”, nº 73, de 13.04.1957.)

Pior do que pipocar nas finais, havia outras questões muito maiores. Mas não as enfrentamos. Porque nossa navalha de Ockham foi afiada por Mencken: temos a histórica idiossincrasia de buscar um bode expiatório bem simples (e fácil de entender) para os nossos problemas mais complexos (e difíceis de admitir). O resultado é que a evolução técnica dos jogadores é acompanhada pela estagnação burocrática do entorno administrativo. Por isso é que comentários antigos continuam parecendo miseravelmente atuais – não porque seus autores eram visionários, mas porque evoluímos a passos (contrariados) de jabuti. P.ex.: “É inegável que o futebol brasileiro, de maneira geral, atravessa uma indesejável decadência técnica, proveniente da decadência moral que assola o esporte e de que, no meu entender, o único responsável é a decadência ou crise de autoridade por que passam as direções superiores, salvo raríssimas exceções.” (Antônio dos Santos, “Unitário”, Fortaleza, 19.01.1941, p. 8.)

“Na desordem em que vive o futebol irá à falência. (...) Da forma como caminhamos levaremos o futebol a um abismo do qual dificilmente sairá.” (Mário Frugiuele, “A Gazeta Esportiva Ilustrada”, a. 3, nº 50, 1ª quinz. mar./1956, p. 8-9.)

Pois bem, mais um sintoma dessa nossa mania de culpar o sofá pelo adultério que ele testemunhou é a aposentadoria compulsória da camisa branca. Muito já se falou sobre o despreparo, o amadorismo, a inconseqüência e a presunção (do oba-oba, do “já ganhou”) que cercaram os bastidores do “maracanazo”. Se o jeitinho é nosso método (Damatta), o improviso é nosso planejamento estratégico. Porque “é no andar da carroça que as abóboras se acomodam”. Enquanto tratamos tudo como se fossem abóboras, continuamos acomodados a andar de carroça. A Carroça Brasileira de Desportos. Que permaneceu intocada e intocável. Em compensação, condenamos dois inocentes: Barbosa e a branquinha. Ele, crucificado pelo racismo e ela, demonizada pela superstição. Ou seja, ambos foram vítimas da ignorância institucionalizada.



Em seu lugar, entronizamos a messiânica camisa amarela. A mais ambígua das cores (Heller). Por um lado, é o símbolo heráldico do ouro (dos títulos), da força (física), do poder (de campeão), da riqueza (das taças), da grandeza e da nobreza. Por outro, dá origem à gíria “amarelar”, por simbolizar também a mesma covardia (Morris) que, ironicamente, alimenta o complexo de vira-latas (Nelson Rodrigues) que queríamos exorcizar mudando a cor.

O amarelo entrou na bandeira nacional para simbolizar a Casa de Habsburgo, da Imperatriz Leopoldina. Então, é ela que continuamos homenageando desde 1954, como se entrasse em campo o escrete austríaco do “matriarcado de Pindorama” (Oswald de Andrade). Não seguimos os precedentes da Itália e da Holanda, cujas cores homenageiam as respectivas Casas reinantes. Em nosso uniforme, o verde da Casa de Bragança nunca passou dos detalhes no uniforme. Esse verde heráldico (sinopla) que significa o campo (de futebol), a honra, a amizade, o respeito e a cortesia dignos do fair-play de um Coubertin. Mas sobretudo a juventude e a esperança. E, talvez, justamente por isto não tenha destaque: para não nos rotular por uma imaturidade “deitada eternamente em berço esplêndido”, que vive da imortal esperança no país de um futuro (Zweig) que nunca virá. No futebol, o futuro já veio – e já passou.

Por todos esses motivos, saúdo o tímido retorno da cor branca que nos acompanha desde a primeira bandeira, da Ordem de Cristo. No primeiro tempo do amistoso de 25.05.2004 (0x0 com a França) e na recente abertura da Copa América, em 14.07.2019 (3x0 Bolívia), nem o cheirinho básico de naftalina fez vexame. Mantenhamos a amarela e a azul, igualmente belas e que nos deram tantas e inegáveis glórias. Mas qualquer vestiário tem espaço para mais um cabide. A branquinha poderia muito bem ser adotada como camisa nº 3, que está na moda entre outras seleções – por pressão dos fabricantes, é claro. Contudo, sem medo de maldições. Para quem se orienta por tabus, tenho um argumento inatacável: a camisa branca está invicta há 62 anos... Mas que ninguém a culpe quando um dia perdermos. Porque competir é sujeitar-se a perder. Logo, independentemente da cor escolhida, uma eventual derrota é algo inevitável. Evitável é repetir uma injustiça histórica.

VAR FOTOGRÁFICO

Camisa Branca utilizada pela Seleção Brasileira no Sulamericano 1957
Jogadores da seleção brasileira que ilustram as edições de “Manchete Esportiva”, nº 73, de 13.04.1957, e nº 74, 20.04.1957, sobre o encerramento do Campeonato Sul-Americano de 1957 que disputaram. Fotos de Jankiel, em ektachrome.


Pesquisas realizadas por Laércio Becker.
Página adicionada em 02/Julho/2019.
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