Campeões do Futebol

CAPÍTULO 7 - UNIFICAÇÃO DOS TÍTULOS BRASILEIROS
(8. DOSSIÊ - PARA FINALIZAR)



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8. PARA FINALIZAR

Como é sabido, por meio da RDP nº 3, de 2010, a CBF reconheceu como títulos brasileiros, em pé de igualdade com o Campeonato Brasileiro: a Taça Brasil, o Roberto Gomes Pedrosa de 1967 a 1969, e a Taça de Prata de 1970. Fez isso com base num dossiê do grande pesquisador santista Odir Cunha, merecedor do maior respeito.

O capítulo mais importante do dossiê, salvo engano, é o que afirma que não faz sentido comparar a Taça Brasil à Copa do Brasil. Para tanto, o autor argumenta que:
a) ao contrário do campeão da Copa do Brasil, o campeão da Taça Brasil era considerado “campeão brasileiro”;
b) a Taça Brasil definia todas as duas vagas brasileiras para a Libertadores, ao contrário da Copa do Brasil, que define apenas uma das cinco;
c) a Copa do Brasil, desde 2001, não permite a participação dos times que competem na Libertadores e alguns grandes clubes escalam times reservas, de modo que é um “torneio dos excluídos”, o que explica algumas surpresas em cada edição.

Com o devido respeito, entendo que os aspectos apontados não afastam o que estou utilizando neste estudo, que é o critério de composição. Ademais:
a) se a questão é ser chamado “campeão brasileiro”, como conciliar dois “campeões brasileiros” por torneios diferentes, em 1967 e 1968?
b) se o número de vagas para a Libertadores é relevante, por que o Roberto Gomes Pedrosa de 1967 e 1968 é considerado campeonato brasileiro, se não justamente pelo que chamo de critério de composição? por que o critério é usado somente neste caso?
c) se o número de vagas para a Libertadores é relevante, então o que dizer de 1969, quando o Brasil não enviou representantes à Libertadores? significa que não tivemos um campeão brasileiro? mas então, como o “Robertão” é reconhecido como campeonato brasileiro?
d) de 1989 a 2000 – e novamente a partir de 2013, segundo foi anunciado – os participantes da Libertadores também poderão jogar a Copa do Brasil.

Sendo assim, em nome do critério de composição, mantenho a opinião de que Taça Brasil e Copa do Brasil são torneios da mesma categoria, conforme explicado nos itens 3.2 e 5, acima.

Que fique claro: não considero um demérito essa distinção e também discordo que compará-la à Copa do Brasil “desoficializa” a Taça Brasil. Como explicamos exaustivamente acima, cada categoria de torneio deve ser respeitada em si e em suas diferenças. Não considero a Copa do Brasil inferior ao Campeonato Brasileiro. É apenas um torneio diferente, com critérios próprios, tanto de composição quanto de organização. E é nessa diferença que ela se justifica porque, se fosse igual, seria apenas uma cópia do próprio Campeonato Brasileiro – uma duplicidade que, certamente, não faria sentido (tanto é assim que, quando o “Torneio do Povo” ameaçou concorrer com o Campeonato Brasileiro, foi extinto).

Por todos esses motivos, concordo com a unificação dos títulos do Campeonato Brasileiro com os do Robertão (como defendi no item 4.2), mas discordo de sua unificação com os da Taça Brasil. Nesse sentido, uma proposta a refletir seria unificar os títulos da Taça Brasil com os da Copa do Brasil, tal como esbocei no item 3.2. Unificar os títulos conforme a, por assim dizer, identidade “genética” dos torneios, o seu “DNA”, que procurei rastrear neste trabalho.

Agora, se é para misturar tudo, por que só Taça Brasil com Campeonato Brasileiro? Se for para desconsiderar a “identidade genética” dos torneios, então que tal se a mistura dos “ingredientes” fosse feita até as últimas conseqüências, ou seja, somando todos os torneios brasileiros entre principais times (item 4.2) com os que reúnem os campeões estaduais (item 3.2)?

Por todos os motivos já examinados, creio que isso não seria exatamente uma “unificação”, mas uma verdadeira “confusão” entre torneios de composição muito diferente. Por isso, não defendo isso mas, apenas a título de curiosidade, o resultado seria o seguinte:

Clube Títulos de Torneios Brasileiros Total de Títulos
  Entre Principais Times Entre Campeões Estaduais  
Palmeiras 6 4 10
Santos 3 6 9
Flamengo 6 3 9
Corinthians 5 2 7
Cruzeiro 2 5 7
São Paulo 6 0 6
Grêmio 2 4 6
Fluminense
Vasco
4
4
1
1
5
5
Internacional 3 1 4
Atlético-MG
Bahia
Botafogo
1
1
1
1
1
1
2
2
2
Atlético-PR
Coritiba
Guarani
1
1
1
0
0
0
1
1
1
Criciúma
Juventude
Paulista
Paulistano
Santo André
Sport
0
0
0
0
0
0
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
Totais por estados (Leopoldo Sant’Anna ficaria contente):
36 – São Paulo
21 – Rio de Janeiro
11 – Rio Grande do Sul
9 – Minas Gerais
2 – Bahia, Paraná
1 – Pernambuco, Santa Catarina
Desconheço quem defenda uma “unificação total”, como essa acima.
Em compensação, há um ou outro pedido individual, de reconhecimento de títulos isolados. Vejamos alguns dos que vêm sendo apresentados à imprensa e à própria CBF:
a) o Flamengo quer o reconhecimento da Copa União, de 1987: pelo motivos já expostos nos itens 4.2 e 7, em nossa opinião, o pleito é procedente (repito: pelos motivos já explicados, estou abstraindo as decisões administrativas e judiciais);
b) a Portuguesa de Desportos quer o reconhecimento do Torneio Rio – São Paulo como título brasileiro, por ser o antecessor do Roberto Gomes Pedrosa: como já explicamos nos itens 4.1, 4.2 e 5, o “Robertinho” realmente é o embrião do “Robertão”, mas o critério de composição é flagrantemente distinto, porque se restringe a dois Estados; logo, em nossa opinião, o pleito é improcedente;
c) o Grêmio Maringá quer o reconhecimento do Torneio Zonal Centro-Sul-Norte-Nordeste, de 1968, como título brasileiro: de acordo com o que já explicamos no item 6, do ponto de vista do critério de composição, esse é um “torneio entre campeões regionais” e, nessa condição, não se confunde com o Campeonato Brasileiro; logo, em nossa opinião, o pleito é improcedente; também seria improcedente eventual pedido de reconhecimento do Torneio dos Campeões da CBD, de 1968, uma vez que se trata de “torneio entre campeões nacionais”, pelos motivos explicados no item 7.

Diante de tudo isso, devemos concluir que uma unificação de títulos é possível, sim. E recomendável. Mas se tiver por critério a composição básica dos certames, deveria ser conforme itens 5 a 7, acima. Ou seja, respeitando as diferenças de critérios, sem que isso signifique mérito ou demérito para nenhum dos campeões.

Atenção, caro leitor, isto tudo é apenas uma opinião, só isso. Não é uma decisão da CBF, muito menos uma ordem judicial. Aliás, não é uma imposição, nem sequer uma “decisão”, apta a repercutir na história de nenhum clube. Não quero obrigar ninguém nem quero convencer ninguém. Agradeço o apoio de quem concorda e respeito quem discorda.

Para encerrar, observamos que este nosso estudo tem como foco a questão da unificação dos títulos brasileiros, não a elaboração de um ranking – embora seja tentadora a idéia lançada por alguns leitores, a quem publicamente agradeço. O problema é que um ranking exigiria a definição clara de critérios para ponderação das pontuações atribuídas aos vários torneios, p.ex.:
• os títulos de torneios entre campeões estaduais (Taça Brasil e Copa do Brasil) têm o mesmo peso, i.e., a mesma pontuação dos torneios entre principais times (Campeonato Brasileiro)?
• em caso negativo, representa que fração? metade, dois terços, quanto? como justificar que a pontuação da Copa do Brasil representa metade e não dois terços, ou um terço, ou quatro quintos, da pontuação do Campeonato Brasileiro?
• essas mesmas questões se repetem na definição da pontuação dos torneios entre campeões regionais (item 6) e entre campeões nacionais (item 7);
• como pontuar títulos divididos entre clubes?
• edições distintas de um mesmo torneio têm pontuação distinta conforme o número de jogos necessários para obter o título? ou conforme o rating médio dos participantes?
• como pontuar as posições intermediárias da tabela? e o rebaixamento?

Salvo engano, é praticamente impossível tomar essas decisões sem a adoção de certo grau de arbitramento de valores. Porque os torneios não são grandezas matemáticas. A partir de sua descrição, por mais completa que seja, é impossível deduzir matematicamente quanto eles valem em pontos. Para uma aferição matemática de grandezas não matemáticas é necessário recorrer à fixação até certo ponto discricionária de números, que seriam, no caso: as pontuações por tipo de torneio, os critérios de ponderação e as proporções entre as pontuações.

Isso sem contar que um ranking de clubes seria incompleto se desconsiderasse torneios aqui não abordados, como os estaduais, regionais, internacionais e mesmo nacionais de divisões inferiores. Com a repetição, em todos eles, dos mesmos problemas de atribuição e ponderação de pontos.

Por todos esses motivos, a elaboração de um ranking acarreta uma série de desafios que confesso não estar preparado para enfrentar, ao menos neste primeiro momento. Futuramente? Talvez. Enquanto isso, caso alguém queira aproveitar este meu trabalho para, a partir dele, criar um ranking de clubes, fica aí a sugestão.
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