SUMÁRIO
1. A mania da paridade
2. A estranha disparidade do Módulo Branco
3. Seria o América-SP?
4. Seria o Alto Vale-SC?
5. Ou não seria ninguém?

1. A mania da paridade
Por mais que a CBD e a CBF tivessem, até 2003, uma comprovada criatividade para regulamentos do campeonato brasileiro, elas mantinham mais ou menos intacto um detalhe que podemos chamar de “mania da paridade”. Porque, de modo geral, para uma mesma fase, os campeonatos eram divididos em grupos com o mesmo número de participantes.

É claro que, mesmo na primeira divisão, há algumas exceções, mas nesses casos elas foram aos pares, p.ex.:
• 1972 – 1ª fase: dois grupos com 6 times cada, dois com 7;
• 1975 – 1ª fase: dois grupos com 10, dois com 11; 2ª fase: dois grupos com 10, dois com 5, dois com 6;
• 1976 – 2ª fase: quatro grupos com 6, seis com 5;
• 1977 – 1ª fase: quatro grupos com 10, dois com 11; 2ª fase: dez grupos com 5, dois com 6;
• 1978 – 1ª fase: dois grupos com 13, quatro com 12; 2ª fase: quatro grupos com 9, dois com 7, quatro com 6;
• 1985 – 1ª fase: dois grupos com 10, dois com 12.

Como se vê, sempre aos pares (dois, quatro e dez grupos): para cada grupo com número diferente, outro também. Sendo assim, o que aconteceu na Copa João Havelange (JH)?

2. A estranha disparidade do Módulo Branco
É sabido que a 1ª fase da JH era prevista para ser dividida em:
• um Módulo Azul (equivalente à 1ª divisão) com 25 times em grupo único,
• um Módulo Amarelo (equivalente à 2ª divisão) com dois grupos de 18 times cada = 36 times;
• um Módulo Verde (equivalente à chave norte-nordeste da 3ª divisão) com quatro grupos (de A a D) de 7 times cada = 28 times;
• um Módulo Branco (equivalente à chave sul-sudeste da 3ª divisão) com três grupos (E, F e G) de 7 e um grupo (H) com 6 times = 27 times.

Como o Módulo Azul tinha número ímpar de times, a disparidade do Módulo Branco passa despercebida quando analisados os números gerais do campeonato, que contaria com 116 times no total, sendo 55 no equivalente à 3ª divisão – que, oficialmente, não era reconhecida como tal (Placar nº 1167, set/2000, p. 86).

Ocorre que dois times desistiram antes mesmo de começar o torneio: o Interporto-TO, do grupo D do Módulo Verde, e o Rio Branco-ES, do grupo E do Módulo Branco (Placar nº 1172, fev/2001, p. 77). Com isso, o campeonato foi efetivamente disputado por 114 times, sendo 53 no equivalente à 3ª divisão.

Essas duas desistências explicam as divergências na bibliografia, já que algumas fontes contabilizam 116 participantes e outras, 114 (p.ex., Enciclopédia do futebol brasileiro. São Paulo: Areté, 2001. v. 2, p. 381). E essas desistências deslocaram a disparidade do Módulo Branco para o Verde, pois o Branco passou a contar com dois grupos com 7 times e dois com 6, enquanto o Verde passou a contar com três grupos de 7 times e um com 6. Mas não é ela que nos interessa.

O que instiga a curiosidade é o seguinte: por que o grupo H tinha originalmente um time a menos? Será que, além de Interporto-TO e Rio Branco-ES, um terceiro time desistiu da JH, antes mesmo da divulgação dos participantes previstos?

Para resolver essa questão, a leitura da bibliografia do futebol dá uma de Chacrinha, pois confunde mais que explica. Vejamos o ótimo almanaque Futebol brasileiro: 1894-2001, de Marco Aurelio Klein (São Paulo: Escala, 2001). Embora relacione corretamente os 55 times que jogariam os Módulos Verde e Branco, ele diz que esse terceiro nível do campeonato “foi disputado por 58 times, divididos em 4 grupos verdes e 4 grupos brancos, de 7 equipes cada (2 grupos brancos contaram com 8 times)” (p. 186).

Antes que alguém comece a procurar quais seriam esses três times não relacionados, acho que descobri a razão do equívoco. Provavelmente, o autor fez uso do Guia Copa João Havelange, edição especial da revista Lance publicada na época. Na p. 12, ele relaciona os times participantes por Módulo e grupo, da seguinte forma:

Numa primeira passada de olhos, se contássemos o número de times pelo número de linhas, chegaríamos à mesma conclusão de Klein. Dá a impressão de que os grupos A a F têm sete times cada, enquanto os grupos G e H, por terem uma linha a mais, teriam oito. No entanto, observando mais atentamente, percebemos que essas linhas a mais decorrem de nomes de times que ocuparam mais de uma linha: no grupo G, União Barbarense; no H, Inter de Santa Maria e Portuguesa Santista. Ou seja, o conteúdo do guia está correto, mas sua diagramação induz a erro.

3. Seria o América-SP?
Outro problema nos apresenta a excelente História completa do Brasileirão, de Roberto Assaf (São Paulo: Areté, 2010), que diz que “nos módulos Verde e Branco, os 48 clubes foram divididos em oito grupos, quatro verdes, quatro brancos” (p. 288). Ou seja, nem 55, nem 53, mas 48 participantes. O que aconteceu?

Também acho que descobri a razão do equívoco – que, por vias transversas, pode nos dar uma pista do “misterioso time que desapareceu”. Provavelmente, o autor tomou por base o Guia do Brasileirão 2000, edição especial da revista Placar (nº 1165, jul/2000). Publicado quando a composição do campeonato ainda não estava fechada, apresentou uma relação exatamente de acordo com a descrição de Assaf, com oito grupos de seis times cada (p. 7). Já o guia Lance foi publicado mais tarde, embora antes das desistências de Rio Branco-ES e Interporto-TO. Negritamos na tabela a seguir as diferenças entre ambos os guias e colocamos entre parênteses os dois desistentes conhecidos:

GUIA PLACAR GUIA LANCE
MÓDULO VERDE
Grupo A
Botafogo-PB
Central-PE
Flamengo-PI
Moto Clube-MA
Porto-PE
---
---
Tuna Luso-PA
Botafogo-PB
Central-PE
---
Moto Clube-MA
Porto-PE
Potiguar-RN
Treze-PB

Tuna Luso-PA
Grupo B
ASA-AL
Camaçari-BA
Campinense-PB
Confiança-SE
---
Juazeiro-BA
Sergipe-SE
ASA-AL
Camaçari-BA
Campinense-PB
Confiança-SE
Corinthians-AL
Juazeiro-BA
Sergipe-SE
Grupo C
(representante de RR)
---
Pinheiros-RO
Rio Branco-AC
Rio Negro-AM
---
União-MT
Ypiranga-AP
Baré-RR
Flamengo-PI
Pinheiros-RO
Rio Branco-AC
Rio Negro-AM
Tocantinópolis-TO
---
Ypiranga-AP
Grupo D
Atlético-GO
Brasilia-DF
---
Dom Pedro-DF
Goiânia-GO
Interporto-TO
Operário-MS
Atlético-GO
Brasilia-DF
Comercial-MS
Dom Pedro-DF
Goiânia-GO
(Interporto-TO)
Operário-MS
MÓDULO BRANCO
Grupo E
América-SP
Juventus-SP
---
---
Rio Branco-SP
São José-SP
Uberlândia-MG
Volta Redonda-RJ
--
Juventus-SP
Nacional-SP
(Rio Branco-ES)

Rio Branco-SP
São José-SP
Uberlândia-MG
Volta Redonda-RJ
Grupo F
Comercial-SP
Etti Jundiaí-SP
Internacional-SP
Madureira-RJ
Malutrom-PR
---
União Bandeirante-PR
Comercial-SP
Etti Jundiaí-SP
Internacional-SP
Madureira-RJ
Malutrom-PR
União-MT
União Bandeirante-PR
Grupo G
Friburguense-RJ
Ipatinga-MG
Matonense-SP
Mogi Mirim-SP
Olímpia-SP
---
União Barbarense-SP
Friburguense-RJ
Ipatinga-MG
Matonense-SP
Mogi Mirim-SP
Olímpia-SP
São Cristóvão-RJ
União Barbarense-SP
Grupo H
Inter de Santa Maria-RS
Ituano-SP
Olaria-RJ
Portuguesa Santista-SP
Rio Branco-PR
Santo André-SP
Inter de Santa Maria-RS
Ituano-SP
Olaria-RJ
Portuguesa Santista-SP
Rio Branco-PR
Santo André-SP
TOTAL DE TIMES
48 55 (-2)

O que se vê é o seguinte:
• times reposicionados: Flamengo-PI (de grupo) e União-MT (de Módulo);
• times que entraram: Potiguar-RN, Treze-PB, Corinthians-AL, Tocantinópolis-TO, Comercial-MS, Nacional-SP, Rio Branco-ES (que depois desistiu) e São Cristóvão-RJ;
time que saiu: América-SP.

De fato, se o América-SP tivesse permanecido, não haveria disparidade entre os Módulos, pois o Verde também ficaria com 28 times. Seria ele “o misterioso time que desapareceu”?

ARGUMENTOS CONTRÁRIOS ARGUMENTOS FAVORÁVEIS
O América-SP era do grupo E, não do H (aliás, o único que ficou idêntico em ambos os guias). Sim, mas ele poderia ter sido reposicionado, assim como o Flamengo-PI e o União-MT.
Havia uma tendência a espalhar os times de um mesmo estado pelos grupos do Módulo Branco e o grupo H já tinha outros três times paulistas. Sim, mas os grupos E e F também tinham três times paulistas e havia o precedente do grupo G, com quatro.

Como os argumentos acima se neutralizam, há uma explicação plausível para a não-participação do América-SP que desempata a “partida”. É que, segundo Milton Rodrigues e Vinicius de Paula (Almanaque do futebol rio-pretense. São José do Rio Preto: Nova Graf, 2006), após ter sido eliminado nas oitavas de final da 2ª divisão paulista, em 25.06.2000, o clube dispensou seu elenco e passou o resto do ano inativo (p. 87). Pela data dessa partida, ainda era possível o time constar no guia Placar, de julho. Provavelmente, o clube não teria condições financeiras de manter o time durante o segundo semestre, ainda mais para disputar um Módulo Branco previsivelmente deficitário, como veio a constatar a revista Placar nº 1167, set/2000, p. 89.

4. Seria o Alto Vale-SC?
Contudo, há outras possibilidades. Poderíamos checar os participantes da 3ª divisão de 1999, mas naquela época eles obtinham a vaga por meio de torneios classificatórios estaduais. Só tinham vaga garantida de uma edição para outra da Terceirona os que estavam em melhor posição logo após os promovidos para a Segundona. E isso foi garantido:
• 1º Fluminense-RJ – Módulo Azul
• 2º São Raimundo-AM – Módulo Amarelo
• 3º Serra-ES – Módulo Amarelo
• 4º Náutico-PE – Módulo Amarelo

Descartado esse critério, passamos ao mais trabalhoso – e especulativo –, a comparação histórica do número de vagas na 3ª divisão nacional. À exceção do União-MT, reposicionado do Módulo Verde (deixando lá os dois times do MS...), o Módulo Branco só tinha times do sul e sudeste. Isso reduz nossa análise aos seguintes estados (dados extraídos de José Renato Santiago Jr. Os arquivos dos campeonatos brasileiros. São Paulo: Panda, 2006. p. 220-1):

Estado 1999 2000 2001
ES 1 1 (desistiu) 2
MT 1 1 1
MG 1 2 7
PR 1 3 2
RJ 4 5 6
RS 2 1 4
SC 1 0 2
SP 2 14 6
TOTAL 36 55 65

Como a tendência nesses estados foi de aumento do número de participantes (de 36 para 55 e depois 65), chamam nossa atenção os estados que tiveram redução desse número (RS e SC) e, em menor medida, os que o mantiveram (ES e MT). Vejamos a composição da 3ª divisão do brasileiro, estado a estado, começando por estes:

1) ES:
• O representante capixaba em 1999 foi o Serra, que em 2000 disputou o Módulo Amarelo.
• O representante capixaba em 2000 seria o Rio Branco, 3º lugar no estadual desse ano. Uma segunda vaga poderia ser de outro melhor classificado? Não: campeão (Desportiva) e vice (Serra) estavam no Módulo Amarelo. O 4º lugar foi do Estrela do Norte.
• Em 2001, os representantes capixabas foram Estrela do Norte (vice estadual desse ano) e Cachoeiro (3º lugar). Portanto, pouco provável que o Estrela (4º em 2000) participasse da JH.

2) MT:
• O número de participantes se manteve nos três anos. Improvável que tivesse um aumento em 2000 e reduzisse novamente em 2001.

3) RS:
• Os times gaúchos em 1999 foram Brasil de Pelotas e Caxias. Ambos disputaram o Módulo Amarelo em 2000.
• Em 2000, o representante gaúcho foi o Inter de Santa Maria, 16º no estadual desse ano. Participou a convite (Candido Otto da Luz. EC Internacional. Santa Maria: ed. do autor, 2008. p. 509).
• Em 2001, os times gaúchos foram: Brasil de Pelotas (rebaixado do Módulo Amarelo), Pelotas (3º no estadual desse ano), São José (6º) e Passo Fundo (11º).
• No entanto, o grupo H já tinha o Inter de Santa Maria. Dada a tendência a espalhar os estados pelos grupos do Módulo Branco, apesar de algumas exceções (PR: dois times no grupo F e um no H), é menos provável que dois únicos times gaúchos se concentrassem num grupo só.

4) SC:
• O representante catarinense em 1999 foi o Figueirense, que em 2000 disputou o Módulo Amarelo.
• Em 2001, os times catarinenses foram: Marcílio Dias (rebaixado do Módulo Amarelo) e Tubarão (3º no estadual desse ano).

Esses detalhes e a ausência de times catarinenses na “3ª divisão” da JH nos obrigam a verificar a classificação que tiveram no estadual de 2000 as cinco equipes que disputaram o Módulo Amarelo:
• 1º Joinville – Módulo Amarelo
• 2º Marcílio Dias – Módulo Amarelo
• 3º Figueirense – Módulo Amarelo
• 4º Alto Vale
• 5º Avaí – Módulo Amarelo
• 6º Criciúma – Módulo Amarelo

Chama a atenção a ausência do Alto Vale. Poderia ter sido convidado? Digamos que tinha as credenciais para tanto. Mas ninguém fala nisso, nem sequer Edson dos Santos, ao tratar da participação dos times catarinenses na JH (Show de bola. Joinville: Univille, 2004. p. 215).

5. Ou não seria ninguém?
Há, por fim, duas últimas hipóteses bem menos instigantes que as duas acima.
Em primeiro lugar, pode ser que a disparidade do Módulo Branco não tenha sido fruto de uma desistência. É a navalha de Ockham: a resposta mais simples. Como não podemos tomar por premissa uma falha (quem cometeria um erro desses, em nível profissional de atuação?), poderia ter sido uma – estranha – decisão deixar o grupo H com um time a menos. Por quê? Sabe-se lá.

Em segundo lugar, a evolução da composição dos grupos ao longo da montagem do campeonato, evidenciada na comparação que fizemos acima entre os guias Placar e Lance, pode indicar que a disparidade do Módulo Branco decorreu não da desistência de um time, mas da ausência de pleiteantes. Como vimos, em seu primeiro formato (guia Placar), o Módulo Branco teria oito grupos de seis times cada. Depois, sete novos times foram incluídos – provavelmente a pedido deles ou das federações –, cada um em um grupo, o que fez um grupo ficar com um a menos (guia Lance). Talvez seja sintoma disso o fato de esse grupo ter sido justamente o último na ordem alfabética, o H. Como corrigir essa disparidade? Forçando algum time a participar? Claro que não. Então, preferiram deixar assim mesmo.

Seja como for, se a história do futebol brasileiro é respingada por asteriscos marcando os inúmeros casos de títulos divididos, contestados, duplicidade de entidades e torneios num mesmo ano e assim por diante (Placar nº 1172, fev/2001, p. 75), “o misterioso time que desapareceu” do Módulo Branco da JH nem sequer isso mereceu... simplesmente porque talvez nunca tenha existido.


  Pesquisas de Laércio Becker  Laércio Becker, de Curitiba-PR.
  Fonte: citadas no artigo.
  Página adicionada em 05/Dezembro/2018.

 

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